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Domingos Sávio Calixto

Medusa, Eva e misoginia

Por Bruno
Medusa, Eva e misoginia

CREPÚSCULO DA LEI – ANO VIII – CCCXLI

Uma reflexão sobre o pensamento de Carl Gustav Jung (1875-1961) incidindo-o sobre o mito de Medusa permite compreender, de alguma forma, como certas imagens do feminino foram  constituídas em dimensões de medo e temor. 

Não se trata de afirmar que o feminino seja, em si, medonho e atemorizante, mas de sugerir como a psique projeta tais conteúdos sobre essa figura. Ora, conforme Jung, “anima” é o conceito de um conjunto de imagens, afetos e disposições que compõem o feminino no inconsciente do homem, e isso é importa.

Essa estrutura de imagens – anima - evidentemente, não tem nada a ver com mulher real, mas com o volume de símbolos adquiridos que auxiliam na relação do sujeito com o mundo emocional, principalmente na questão do desejo e da vontade com o outro. Trata-se, portanto, de uma instância dinâmica que tanto pode favorecer a relação, como também gerar confusão e desorganização. 

O ponto decisivo é quando essa anima não é internalizada devidamente para ser reconhecida como parte da própria vida psíquica. Quando isso ocorre, ela tende a ser deslocada para fora, recaindo em figuras concretas, atingindo drasticamente a mulher empírica, real.

Havendo esse movimento, a mulher deixa de ser percebida em sua singularidade e passa a funcionar como suporte de conteúdos inconscientes negativos gerais. Ela não vai ser vista como ela, mas uma imagem interior reflexiva do que se impõe por percepções não admitidas internamente. Surge daí a negação e o ódio à mulher, resultantes da própria negação interna da anima, a qual deveria compor o feminino do homem. Nesse contexto, o mito de Medusa adquire relevância semiótica. 

A figura da górgona, cujo olhar petrifica, pode ser interpretada como expressão simbólica do desencontro do homem com sua anima, a qual se torna insustentável na “petrificação” gerada pela Medusa e correspondendo à uma paralisação psíquica diante de conteúdos intensos e não admitidos. 

O horror gerado pela górgona não reside na figura em si, mas na incapacidade de significar o que ela representa. Medusa torna-se, assim, a imagem de uma anima não integrada e negativamente projetada contra o feminino externo, a mulher. Ela vai surgir como ameaça não por sua natureza, mas porque carrega conteúdos que o sujeito não reconhece em si mesmo. Nesse processo, o feminino - que deveria ser idealizado - é demonizado e externamente projetado de forma negativa.

No caso de Medusa, a estratégia de Perseu ao não encara-la diretamente, mas utilizar-se de um escudo polido como espelho não é apenas defensiva, também de densidade simbólica. Não se trata de negar ou eliminar o conteúdo do medo, mas de criar uma forma de reproduzi-lo na mulher, configurada em forma de monstro.

O espelho, nesse sentido, pode ser entendido como metáfora da consciência reflexiva de transferência do medo. Ele reflete uma imagem que torna possível vê-lo sem ser admitido, surgindo a figura monstruosa. O perigo não está na figura feminina, mas na forma como o sujeito se relaciona com seus próprios conteúdos internos refletidos na mulher.  

Significa que o mito de Medusa não é apenas a expressão de uma essência feminina ameaçadora, mas por dramatizar transferências de agressividade - inclusive estupro - que a levam a ser transfigurada em monstro. De alguma forma, toda violência contra a mulher é, em última análise, um estupro da sua condição.

A górgona Medusa revela aquilo que ocorre quando o sujeito é confrontado com algo que não consegue reconhecer em si mesmo. A monstruosidade, nesse caso, não é uma qualidade do objeto, mas um efeito da relação estabelecida com o sujeito em desequilíbrio interno com sua anima.

Consoante, a lei do retorno se comprova perpétua. Ao sacrificar o feminino da anima nas realidades da mulher mediante violência, tanto mais a mulher se “alimenta” das forças dessa negação. Estendendo-se ao mito de Eva condenada quanto ao fruto do conhecimento, da árvore do bem e do mal. Foi daquilo que ela se alimentou. E se não a matou, a fez forte.

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