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Editorial

Nem quem protege está seguro

Por Bruno
Nem quem protege está seguro

O Brasil já se acostumou a se indignar com o feminicídio. E esse, por si só, já é um problema grave. Indignar-se não deveria ser rotina. Não deveria ser parte do cotidiano. Mas, diante de tantos casos, a sociedade foi sendo anestesiada por uma violência que insiste em se repetir.

O assassinato da policial militar Gisele Alves Santana, em São Paulo, rompe qualquer possibilidade de normalização. Não apenas pela brutalidade do crime, mas por tudo o que ele representa. Segundo as investigações, ela foi morta dentro de casa, com um tiro na cabeça, pelo próprio marido, um tenente-coronel da Polícia Militar. Não é apenas mais um caso. É um retrato cruel de uma realidade que vai além da violência doméstica e escancara uma contradição profunda dentro da própria estrutura de segurança.

Durante semanas, o caso foi tratado como suicídio. Depois, como morte suspeita. Foram necessários 24 laudos periciais, análises detalhadas, reconstituições e uma série de evidências técnicas para desmontar uma versão inicial que não se sustentava. Marcas no corpo, trajetória do disparo, ausência de resíduos de pólvora nas mãos da vítima, sinais de agressão antes do tiro, inconsistências no relato. Aos poucos, a verdade foi se impondo. E o que se revelou não foi apenas um crime, mas uma tentativa de encobri-lo.

Esse é um dos pontos mais perturbadores. Não se trata apenas de violência. Trata-se da tentativa de manipular a realidade, de distorcer os fatos, de transformar uma vítima em dúvida. E isso não é raro. Em muitos casos de feminicídio, o primeiro movimento é sempre o mesmo: questionar, relativizar, levantar suspeitas sobre quem não pode mais se defender. É uma segunda violência, tão cruel quanto a primeira.

Mas aqui há um agravante impossível de ignorar. O principal suspeito não é um desconhecido, não é alguém à margem da sociedade. É alguém que ocupava uma posição de autoridade, que conhecia a lei, que deveria cumpri-la e, acima de tudo, protegê-la. Quando a violência parte de dentro de quem deveria combatê-la, o impacto é muito maior. Porque não é apenas uma falha individual. É uma quebra de confiança.

A farda, que simboliza proteção, não pode jamais servir como escudo para o crime. Não pode representar poder acima da lei. Não pode criar a ilusão de que alguns estão protegidos pelas próprias estruturas que deveriam garantir justiça. Quando isso acontece, o dano não é apenas à vítima. É à credibilidade das instituições, é à sensação de segurança da sociedade, é à ideia de justiça.

O caso de Gisele não pode ser apenas mais um número nas estatísticas. Ele precisa ser encarado como um alerta definitivo de que o problema não está restrito a um grupo, a uma classe ou a um contexto específico. Ele atravessa tudo. Inclusive as instituições.

Se nem quem veste a farda está protegida dentro da própria casa, é preciso admitir: o problema é mais profundo do que se quer admitir.

E enquanto a sociedade continuar tratando o feminicídio como um episódio isolado, e não como um reflexo de uma estrutura que ainda falha em proteger mulheres, novos casos continuarão surgindo. Com novas vítimas. E a mesma pergunta de sempre. Até quando?

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