Os cães não suportam os motoqueiros

Augusto Fidelis
Um dia desses joguei dois pães velhos no lixo. Logo depois, quando saía de casa, vi um cachorro deitado à sombra do prédio que fica em frente. O animal tinha a pele sobre os ossos, o que dava a entender que há muito tempo fora abandonado pelo dono. Minha consciência logo me chamou à atenção: “Que absurdo, você jogando pão no lixo e esse cão morrendo de fome!”.
Voltei imediatamente, apanhei um dos pães e fui levá-lo ao quadrúpede, certo de que praticava um grande ato de caridade para com aquele “irmão”, segundo a filosofia de São Francisco de Assis. O cachorro cheirou o meu presente por duas vezes e o recusou. Olhou-me demoradamente, com aquele olhar de censura, como se perguntasse: “O que é isso companheiro?”. Entendi, pedi desculpas e segui adiante, envergonhado.
Fui matutando pelo caminho: se eu tivesse pelo menos um pedaço de carne para colocar dentro do pão ou um molho que o deixasse mais saboroso! Mas eu, por tantas vezes, já comi pão seco, porque aquele cachorro, com cara de passa fome, não podia fazer o mesmo?!
Chegando à casa de um amigo relatei-lhe o ocorrido. Ele foi logo me consolando:
- Uai, menino, os cachorros estão assim agora, muito luxentos. Todos os dias, a Teca é obrigada a fazer macarrão com massa de tomate para aquela cachorrinha dela. Se o molho não estiver bem vermelhinho, ela não come. Esse cachorro do Guilherme não quer mais sair para passear a pé, tem de ser de carro. O mundo está perdido!
Bem, de acordo com a posição do dono, a cachorrada também tem classe social. Há os que tomam banho perfumado e há os que rolam na poeira, mas com elegância. Tenho que admitir: os “Lulus” estão cada vez mais inteligentes. Inclusive, entendem de sinais de trânsito e os respeitam.
Um estudo recente, não me lembro de qual universidade, deixou-me boquiaberto. Para os cães de rua, cachorro vadio não é outra coisa senão motoqueiro. Isto quer dizer, então, que cão e cachorro não são palavras sinônimas, já que os caninos rejeitam o rótulo de cachorro, o qual eles atribuem aos outros. “Todo aquele que se locomove sobre duas rodas é cachorro. Não perca a oportunidade de morder-lhe o calcanhar”, dissera certa vez Lulu Ferrabrás, presidente do Movimento de Cães de Rua.
Por coincidência, ainda ontem, vi um cão enorme sentado na esquina da avenida Getúlio Vargas com a rua Goiás, o qual observava atentamente o abrir e o fechar do sinal. Naquela esquina os motoqueiros cometem os maiores absurdos no que tange à legislação de trânsito. Pelo visto, se depender dos cães de rua, o governo vai endurecer ainda mais com os motoqueiros. Passeatas contra seguro não vão adiantar coisa alguma.
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