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Augusto Ambrosio Fidelis

Desejos contidos

Por Bruno
Desejos contidos

Augusto Fidelis

Engraçado, hoje amanheci com vontade de comer frango caipira com ora-pro-nóbis e angu. Ah! Também um pouco de arroz e uma colher de feijão mal amassado. Tudo afogado no alho para dar aquele cheiro bom, de ajuntar água no céu da boca. Tomara que essa vontade passe logo. Onde, meu Deus, vou conseguir ora-pro-nóbis! Se a dona Ana ainda fosse viva (que Deus a acolha perante sua face), certamente este meu desejo seria logo satisfeito. Ela não ficava sem estas coisas no seu quintal. Mas é só o dono morrer que a casa vem abaixo, diriam os antigos.

Minha avó fazia ora-pro-nóbis com angu, arroz socado no pilão; frango só quando aparecia visita. Mas a sua especialidade era fava novinha com focinho de porco, na panela de ferro. A gente comia de lambuzar as mãos e os beiços. Naquele tempo, quem tinha lábios era almofadinha, pobre era beiço mesmo. Se havia diferença de uma coisa para a outra não sei, porque esse detalhe não tinha a mínima importância. A gente nem tinha rosto, porém muita vergonha na cara. Minha mãe falava uma vez só e estava conversado.

O bom é que naquele tempo a gente tinha onde apanhar ora-pro-nóbis. Minha mãe advertia que não podia exagerar na comeria: “Ora-pro-nóbis é muito quente, com excesso pode fazer mal à saúde”, lembrava. Mas eu comi muito, talvez porque soubesse, no inconsciente, que viriam anos de escassez. Não se acha ora-pro-nóbis. Se ao menos eu encontrasse um bom molho de folha de batata-doce, para aquele afogado? Mas onde vou encontrar folha de batata-doce, meu santo anjo de guarda? Guiai-me e alumiai-me nesta busca despropositada!

Seja como for, preciso de uma boa panela de angu. Lembro-me que os cães lá de casa sabiam quando o angu estava pronto. Ficavam em pé na cancela, olhando para dentro da cozinha, na maior ansiedade. Bobagem deles, nunca faltou angu para ninguém. Minha preferência era pela raspa, para comer com leite fervido e rapadura. Açúcar era luxo, coisa para gente remediada. Mas quando o quilo passou de 450 para 500 cruzeiros, foi um escândalo. Dizia-se, na ocasião, que ninguém mais tomaria café. Vê se tem cabimento: acabei de tomar meu pretinho agora. Graças a Deus essas previsões não se confirmaram.

Um amigo meu disse que tudo que é sólido se desmancha no ar, então, não vejo necessidade de ter tanta solidez numa coisa assim. O que passou, passou, o negócio é seguir em frente, mesmo que o pensamento vá buscar coisas que a gente já disse adeus no século passado.

Não sei de nada. Só sei que hoje amanheci com vontade de comer frango caipira com ora-pro-nóbis e angu. Ah! Bem lembrado: também um pouco de arroz e uma colher de feijão mal amassado, tudo afogado no alho, para dar aquele cheirinho bom. 

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