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Augusto Ambrosio Fidelis

Velhos tempos, belos dias

Por Bruno
Velhos tempos, belos dias

Augusto Fidelis

    Aconteceu assim: justamente no momento em que ensaiava a coreografia a ser apresentada no Estrela do Oeste Clube, Zélia Brandão virou o pé. A legião de admiradores caiu de joelhos, em preces, pedindo clemência aos céus. Sem a Zélia, quem abriria as cortinas do passado? Quem poderia irradiar a alegria que lhe é peculiar e proporcionar aos foliões a tão esperada noite de sonhos e fantasias? Em meio a tantos clamores, uma surpresa agradável: Zélia, uma mulher de fibra, não deu a mínima para o pé virado. Exigiu que todos enxuguem as lágrimas, pois ela não deixaria a peteca cair.

    Ao som de clarins, arautos anunciavam aos quatro ventos que a grande festa se aproximava, com o mesmo brilho de 2003. Dizia a mensagem: “Eu, Zélia Brandão, faço saber que no dia 14 de fevereiro de 2004, reinará a felicidade, principalmente para as pessoas que têm algo de bom para ser recordado. Abro as cortinas do passado, com a mesma galardia do ano anterior. Preparem-se para a batalha de confetes”. De boca em boca, a notícia se espalha como rastilho de pólvora. Arlequins e colombinas marcavam encontros em meio à multidão.

    Segundo fontes não oficiais, na época, Vladimir Azevedo passava férias em Cancun e retornou às pressas para os ensaios da Orquestra Vereda Tropical. Seria preciso reaver os antigos sucessos carnavalescos e dar-lhes nova vida; nesse caso, somente os “veredianos” possuíam técnica tão apurada. Márcia Prímola foi uma das personalidades presentes, com novos balangandãs buscados na Bahia. As celebridades divinopolitanas se movimentaram na reserva de mesas, congestionando a secretaria do Estrela. 

    Ninguém poderia voltar ao passado se Zélia Brandão não abrisse as cortinas. Então, tratava-se de oportunidade única, algo imperdível. A cidade inteira estava convidada a contemplar o que ficou para trás. Quantos momentos maravilhosos não foram valorizados na época devida. No entanto, poucos privilegiados poderiam transpor o pórtico desse santuário e buscar, ainda que apenas um pouquinho, aquilo que lhe fora tão caro. Enquanto houvesse mesas disponíveis no salão, haveria também a possibilidade da participação naquele momento mágico. Vendidas todas as mesas, essa possibilidade se escassearia totalmente.

    “Tanto riso, ó quanta alegria”: este era o brado dos escolhidos para o êxtase. Enquanto o carnaval morria em muitos lugares, Divinópolis mantinha o que de melhor passara em nossas vidas. Porém, como tudo passa nesta vida, Zélia Brandão fechou de vez as cortinas do passado. Ainda bem que Maria Bethânia e Gal Costa gravaram a canção que adoto como lema em ocasiões assim: “Sonho meu, sonho meu, vai buscar quem mora longe, sonho meu”.

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