‘Para inglês ver’

A expressão em si é bastante conhecida, mas nem todos conhecem sua origem. No tempo do Império, as autoridades brasileiras, fingindo anteder às pressões da Inglaterra, ‘fingiam’ tomar providência contra o tráfico de escravos africanos – um combate que, na prática, não passava de encenação “para inglês ver”.
Apesar da mudança de contexto, o uso da expressão ainda permanece atual, pois, no Brasil, muitas atitudes permanecem interessadas em apenas provar a ilusão de que algo está sendo feito. Um dos principais exemplos que pode ser citado é a criação de leis por aqui. Quase todos os dias se aprova país afora uma nova lei, seja em âmbito federal, estadual ou municipal. Porém, o que mais chama a atenção é o fato de que poucas delas têm, de fato, utilidade, funcionam ou trazem melhorias para o dia a dia dos brasileiros. Em outras palavras, é tudo para “inglês ver”. As normas apenas se amontoam pelos Diários Oficiais do país afora.
Se a situação já é assim desde que o “Brasil é Brasil”, agora, então, em tempos de extremismo, de polarização, do vale-tudo por 15 minutos de fama, piorou. O que mais se vê são leis criadas com o único intuito de agradar a opinião pública. Políticos desesperados por visibilidade, para se manterem no poder a qualquer custo. Em um total desrespeito ao povo brasileiro, criam regulamentações que são efetivas apenas no papel - ou nem isso.
Para notar tal fenômeno não é preciso ser nenhum expert, basta observar que, apesar da volumosa quantidade de leis, a impunidade reina por aqui. E, ao contrário do que poderia-se esperar, quanto mais normas, menos organizado está o país. Crescente criminalidade, casos de corrupção expostos na mídia e uma nação estagnada.
Não faltam leis, têm para todos os “tipos e gostos”. No mundo real, poucos - quando não nulos - são seus efeitos. E, no fim de tudo, a única coisa que a população tem é o bom e velho “para inglês ver”. Apesar de todos os sinais, muitos ainda se iludem por placares unânimes, sanções ou vetos, discursos eloquentes e vídeos em redes sociais.
E se o tempo é capaz de curar todas as feridas, também é capaz de expô-las. Assim, vemos leis, aprovadas há anos, sem qualquer efetividade. Se juntam a tantas outras, criadas diariamente. Servem apenas ao interesse político e eleitoral daquele que propõe e, uma vez aprovado, o dever fiscalizatório é esquecido.
A infeliz verdade é que tanto faz se o Brasil está no tempo do Império ou não, por aqui as coisas seguem no mesmo ritmo, apenas “para inglês ver”. Muitos representantes estão interessados mesmo é em criar leis para ganhar visibilidade e, em especial, votos. É preciso estudar muito, principalmente as mazelas do povo, para viabilizar uma melhoria que o poder público tenha prioridade e condições de fiscalizar. Não falta disposição para fazer leis que ficam apenas no papel , que, no fundo, não passa de perda de tempo.
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