Parcerias na advocacia não diminuem espaços, ampliam possibilidades

Por que ainda temos tanto receio de compartilhar conhecimento, indicar um cliente ou reconhecer a competência de outro advogado? A advocacia exige independência: defendemos teses, sustentamos argumentos e assumimos responsabilidades. Construímos nossa trajetória com base na reputação e na confiança conquistada. Talvez, por isso, às vezes confundamos independência com isolamento.
Existe a ideia, nem sempre declarada, de que precisamos saber tudo, atender a todas as demandas, dominar todas as áreas e, principalmente, não permitir que uma oportunidade chegue às mãos de outro colega. Mas a advocacia é grande demais para caber em um único profissional.
Nenhum advogado domina todas as áreas do Direito ou acompanha sozinho as mudanças que transformam a profissão. Reconhecer isso não diminui nossa capacidade; demonstra maturidade. Mais importante do que oferecer uma solução apenas razoável é perceber quando outro colega pode conduzir o caso de maneira mais adequada e eficaz. Saber fazer essa distinção é uma virtude profissional.
Compartilhar não significa perder. Indicar um colega não significa necessariamente perder um cliente; muitas vezes, significa honrar a confiança que ele depositou em nós. Quem procura um advogado não entrega apenas uma questão jurídica: compartilha uma preocupação, uma expectativa, uma dificuldade e, em muitos casos, parte importante da própria vida. Por isso, recomendar alguém de confiança é colocar o interesse do cliente em primeiro lugar — e essa também é uma forma de exercer a advocacia.
Uma demanda compartilhada pode gerar parceria e conhecimento. A atuação conjunta de profissionais com experiências diferentes pode oferecer ao cliente uma resposta mais completa.
Isso não significa confiar indiscriminadamente nem ignorar os limites éticos e profissionais que orientam nossa atuação. Uma parceria exige respeito, transparência, diálogo, definição de responsabilidades e confiança. Exige, ainda, reconhecer o trabalho do outro e agir com lealdade em todas as etapas. Na advocacia, ninguém deveria precisar diminuir outro profissional para demonstrar o próprio valor. Podemos reconhecer a excelência de um colega sem duvidar da nossa competência, assim como podemos celebrar suas conquistas sem enxergá-las como ameaça. A valorização do outro não apaga o mérito individual.
A advocacia não precisa ser uma competição permanente. Há espaço para quem trabalha com seriedade, ética, dedicação e responsabilidade. Isso não significa ignorar as dificuldades do mercado: existem concorrência, desafios financeiros e desvalorização profissional. Justamente por isso, fortalecer os vínculos da classe é tão importante. O crescimento individual pode coexistir com o coletivo, sem que um precise impedir o outro.
Quando um advogado compartilha conhecimento, orienta quem está começando, abre uma porta ou indica um colega preparado, contribui para uma profissão em que competência não precisa vir acompanhada de isolamento.
Muitas vezes, uma oportunidade chega até nós porque alguém se lembrou do nosso trabalho e confiou em nossa capacidade. Quantas soluções também surgem de uma conversa, de uma tese discutida com outro profissional ou de uma experiência generosamente compartilhada?
A advocacia também é construída por relações que nem sempre aparecem: conversas nos fóruns, mensagens para discutir dúvidas, indicações responsáveis e experiências compartilhadas. São gestos discretos que fortalecem toda a classe.
Há algo especialmente significativo em dizer a um cliente: “Essa não é a minha área, mas conheço alguém em quem confio e que poderá ajudá-lo.” Essa frase não diminui o advogado. Revela segurança, consciência dos próprios limites e respeito pela especialidade alheia. Sobretudo, demonstra compreender que a necessidade do cliente deve estar acima do desejo de concentrar todas as demandas nas próprias mãos.
Uma carreira não se mede apenas pelo número de clientes, processos ou resultados individuais. Também é marcada pelas relações que construímos, pela reputação que deixamos e pela maneira como tratamos quem caminha ao nosso lado. Compartilhar uma demanda é confiar a outro profissional algo valioso: a responsabilidade de atender alguém que confiou em nós.
A advocacia não precisa de portas fechadas e medo de dividir, e sim de mais disposição para construir. Parcerias não eliminam a autonomia nem o mérito de cada profissional; ampliam competências, fortalecem relações e permitem que o cliente receba uma orientação mais adequada. Quando a confiança substitui a rivalidade, todos podem avançar: o cliente, os profissionais envolvidos e a própria advocacia. Parcerias na advocacia não diminuem espaços, ampliam possibilidades.
Luana Xavier Batista é administradora de Empresas e Advogada. Diretora Jurídica das Unidades Feminina e Masculina das Apacs de Itaúna, Delegada de Prerrogativas e Honorários. Presidente da Comissão de Direitos Humanos da 48ª Subseção da OAB/MG, em Divinópolis.
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