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Preto no Branco

Saco cheio

Por Gisele Souto · Redação· 3 min de leitura
Saco cheio

Será que tem muita gente assim, ou somente eu, que não aguenta mais essa briga extremista e doentia entre direita e esquerda. Não há nada que se poste, mesmo que seja pessoal, uma simples opinião, ou notícia sobre algum assunto, que a internet não vire palco de discussões, na maioria das vezes, agressivas e carregadas de ódio. Sempre tem uns idiotas que parecem não ter nada para fazer, donos da razão, para contestar ou culpar alguém. Primeiro, quem postou acusando- o  de ser de um lado ou de outro. Detalhe: mesmo que não tenha nada a ver com a situação ou não torça politicamente para A ou para B. Não precisa ser psiquiatra, psicólogo ou terapeuta para constatar que essas pessoas estão todas perturbadas. E isso é mais preocupante do que se imagina. Antes poderiam ser rotulados de imbecis — que se acham doutores com várias especialidades para opinar em tudo e fazer daquela, a sua verdade. Agora, percebe-se claramente que estão todos doentes mentalmente. 

Virou time de futebol

Tudo começou nos últimos 10 anos, principalmente de 2014 pra cá, quando as pessoas deixaram de discutir projetos e começaram a torcer por pessoas. Não é mais "eu concordo com essa proposta". É "eu sou desse lado e você é do outro". Quando política vira identidade, qualquer opinião sua vira um uniforme. Se você fala A, automaticamente te colocam num pacote completo de esquerda ou direita. Definitivamente, a internet não mostra o que é mais verdadeiro, exibe o que te prende mais tempo. E nada prende mais que indignação. Um post ponderado tem 10 curtidas. Um xingando o outro lado tem 10 mil. Sem perceber, fomos treinados a sermos mais extremos para ser vistos, do que moderados para que a verdade seja enxergada. Perdemos o meio-termo, a razão e ficamos doentes. Dói constatar isso? Sem dúvida. Mas é a puta verdade, que, infelizmente, poucos enxergam.

A rede obriga 

Antes deste momento crítico, politicamente falando, vivido no Brasil, cerca de 80% das pessoas estavam no centro, com opiniões misturadas — você podia ser liberal na economia e progressista nos costumes, ou vice-versa. Hoje, a rede te obriga a escolher um lado 100%. Se você critica um ponto da direita, já te chamam de esquerdista. Se critica um da esquerda, já te rotulam de bolsonarista. Não sobra mais espaço para ser só brasileiro com opinião própria. No fundo, é mais fácil te xingar de "direita/esquerda" do que dar uma pausa para ler o que você realmente escreveu e interpretar. O rótulo encerra a conversa. Simples assim! 

De onde surgiu? 

A afirmação sobre imbecis que invadiram a internet, aconteceu em 2015, durante a cerimônia de outorga, prêmio de doutor honoris causa na Universidade de Torino, na Itália, quando o romancista, filósofo e teórico da literatura e da linguagem Umberto Eco deu uma de suas declarações mais polêmicas. O renomado autor de "O nome da rosa", da Editora Record, “a internet deu voz a uma legião de imbecis”. O comentário algo ranzinza, por não ser de autoria de algum sorumbático niilista dos tempos digitais, como disse Eduardo Wolf, em um de seus artigos, mas sim de um notável comunicador, erudito que alcançou a celebridade pop, especialista de mídias e de comunicação em amplo sentido, não apenas causou significativo furor — na internet em especial, é claro — como também foi levado a sério por muita gente influente e célebre, e resultou em algumas reflexões interessantes sobre as ilusões de nosso entusiasmo digital. A reflexão pode ser confirmada atualmente a olho nú. 


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