Carregando clima…
Editorial

‘Senti que aquilo não estava certo’

Por Bruno
‘Senti que aquilo não estava certo’

A tentativa de sequestro de uma recém-nascida dentro de uma maternidade, no Piauí, chocou o país não apenas pela gravidade do crime, mas pelo simbolismo do lugar onde tudo aconteceu. Uma maternidade deveria representar o início da vida, o acolhimento e a segurança. 

O caso ganhou contornos ainda mais perturbadores à medida que as investigações avançaram. A mulher suspeita de tentar levar a criança teria informado que faria exames de rotina, trocado de roupa para deixar a maternidade sem levantar suspeitas e preparado, em casa, um quarto completo para receber um bebê. O desfecho só não foi trágico porque uma tia desconfiou da situação, “Senti que aquilo não estava certo”, disse ela. Em seguida, decidiu acompanhar seus passos e conseguiu impedir que a recém-nascida fosse levada. A tragédia foi evitada por atenção, coragem e poucos minutos de diferença.

Mas limitar a discussão a esse episódio seria ignorar um problema maior. Casos extremos têm se tornado frequentes no noticiário. Crianças vítimas de violência, idosos agredidos, mulheres assassinadas, animais brutalmente maltratados, conflitos cotidianos que terminam em morte. A impressão é que, a cada semana, surge uma história ainda mais difícil de compreender do que a anterior.

A investigação aponta que a suspeita apresenta um diagnóstico relacionado à saúde mental, tema que precisa ser tratado com responsabilidade e seriedade. O cuidado psicológico continua sendo um desafio para o país e necessita de mais atenção, acesso e políticas públicas. Ao mesmo tempo, é preciso evitar explicações simplistas. Transtornos mentais não podem servir, automaticamente, como justificativa para toda conduta criminosa, nem alimentar estigmas contra milhões de pessoas que convivem com essas condições sem jamais recorrer à violência. O debate exige equilíbrio, informação e responsabilidade.

Há outro aspecto que não pode passar despercebido. O alvo era uma recém-nascida, alguém completamente incapaz de se defender. A proteção das crianças deveria ser um compromisso absoluto da sociedade, das famílias e das instituições. Quando um episódio como esse acontece justamente dentro de um ambiente destinado a proteger vidas, cresce também a responsabilidade de fortalecer protocolos de segurança e mecanismos capazes de impedir que situações semelhantes voltem a ocorrer.

A recém-nascida voltou para os braços da família graças à desconfiança de uma tia que decidiu agir. Mas o caso deixa um alerta que vai muito além daquela maternidade. Não podemos aceitar que crimes assim sejam vistos como mais um capítulo da rotina. Há acontecimentos que precisam continuar sendo impensáveis. Se um dia deixarem de ser, talvez o maior prejuízo não seja apenas a perda da sensação de segurança, mas da própria humanidade que nos une como sociedade.

Compartilhe:WhatsAppFacebookTwitter

Comentários

Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.

Carregando comentários…