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Editorial

Vazio que custa caro

Por Bruno
Vazio que custa caro

Há filas que não andam. Há consultas que não acontecem. E há um silêncio que pesa mais do que qualquer sala cheia: o da ausência. Em Divinópolis, mais de 14 mil atendimentos deixaram de ser realizados apenas nos três primeiros meses de 2026 porque pacientes simplesmente não compareceram. Não é um detalhe. É um problema estrutural que revela uma falha coletiva.

Quando se fala em dificuldade de acesso à saúde pública, o olhar costuma se voltar para a falta de médicos, para a estrutura limitada ou para a alta demanda. Mas há um outro lado, menos discutido e igualmente grave: o desperdício. Cada consulta marcada e não realizada é uma oportunidade perdida. É alguém que poderia ter sido atendido e não foi. É uma fila que deixa de andar.

O impacto vai muito além do número frio. A ausência de um paciente não prejudica apenas o próprio tratamento. Ela compromete toda a lógica de funcionamento do sistema. Profissionais ficam ociosos naquele horário, enquanto outras pessoas aguardam por semanas ou meses por uma vaga. Em muitos casos, o atraso no atendimento significa agravamento de quadros de saúde que poderiam ser resolvidos com antecedência.

E há ainda um ponto que não pode ser ignorado: o custo. Milhões de reais são desperdiçados em consultas e exames que não acontecem. Recursos públicos, pagos por toda a população, que deixam de ser convertidos em atendimento, estrutura e melhoria do serviço. Em um sistema que já opera sob pressão constante, esse tipo de perda não é apenas preocupante. É inaceitável.

É preciso reconhecer que existem situações legítimas. Imprevistos acontecem, dificuldades surgem, nem sempre é possível comparecer. O problema não está na ausência pontual. Está na repetição, na falta de aviso, na naturalização de um comportamento que prejudica milhares de pessoas ao mesmo tempo.

A solução não depende apenas do poder público, embora ele tenha seu papel. Medidas de confirmação de consultas, atualização de cadastros e reorganização das filas são importantes e já mostram algum efeito. Mas nenhuma estratégia será suficiente sem um elemento essencial: consciência coletiva.

Avisar que não poderá comparecer é um gesto simples. Leva poucos minutos e pode mudar completamente a realidade de outra pessoa que está esperando. É um ato de responsabilidade que ultrapassa o individual e impacta diretamente o coletivo.

O sistema público de saúde é, por natureza, compartilhado. Ele funciona melhor quando há colaboração. Quando cada um entende que sua atitude, por menor que pareça, interfere no todo. Ignorar isso é contribuir, mesmo que indiretamente, para o agravamento de um problema que já é grande.

Este não é um debate sobre culpa, mas sobre responsabilidade. Não se trata de apontar dedos, mas de provocar reflexão. Porque enquanto milhares aguardam por atendimento, outras milhares de oportunidades continuam sendo desperdiçadas.

E, nesse cenário, o vazio de uma cadeira não é apenas ausência. É atraso, é custo, é descuido com o que deveria ser prioridade.

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