Votação do relatório final de CPI gera discussão entre vereadores

Matheus Augusto
A unanimidade da votação não refletiu o clima de animosidade entre os vereadores Edsom Sousa (PSD) e Israel da Farmácia (PP). A Câmara de Divinópolis aprovou, na reunião desta terça-feira, 7, a homologação do relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) sobre a tentativa de permuta de imóveis entre a Prefeitura e uma empresa privada. O resultado de dez votos favoráveis e nenhum contrário terminou em discussão.
Discussão
Após a votação, o requerente da CPI, Edsom Sousa, solicitou a palavra para justificar seu voto. Novamente, voltou a lamentar ter sido denunciado ao Ministério Público (MP) por possível dano ao erário público. O projeto para a troca dos terrenos era do Executivo, do qual Sousa ainda era líder. Na época, em 2022, ele defendia a iniciativa para permitir a Prefeitura revitalizar a área, criando um espaço de lazer e cultura para a região.
— Fui chamado de ladrão na rua, em um restaurante. Dois anos, três meses e 23 dias — relembrou.
Edsom relembrou os quase dois meses de trâmite do projeto, com audiências e reuniões para permitir a colaboração de vereadores e da população. Reforçou, uma vez mais, não ser o autor do projeto, que era do Executivo.
— Eu não avalio imóvel — acrescentou.
Em sua fala, Sousa também afirmou que a denúncia foi apresentada por um então assessor do presidente da Câmara, Israel da Farmácia (PP).
— O senhor ficou calado igual a um monge. O seu gabinete que fez isso. Mas hoje estou com a alma lavada. O senhor sabe que não fiz isso — pontuou sobre o relatório final da comissão.
Para o vereador, Israel “foi muito desonesto” com ele.
— Sou um homem honesto, nunca entrou nada em casa que não fosse fruto do meu trabalho — defendeu.
Por fim, citou sua intenção de processá-lo.
‘Laudo errado’
Posterior à fala de Edsom, Israel classificou as afirmações de “levianas”. Segundo ele, apesar da denúncia ter partido do interior de seu gabinete, afirmou não ter conhecimento do ato.
— Na medida que a denúncia foi feita, eu exonerei o funcionário. Realmente foi feita no meu gabinete, mas ele foi exonerado. Eu não tinha nada a ver com a denúncia, eu não sabia — comentou.
Israel afirmou não ter qualquer envolvimento com o caso.
— Não estou culpando o vereador, eu não condenei o vereador, eu não denunciei o vereador — disse.
Apesar das ponderações, citou o laudo produzido pelo Ministério Público, confirmando diferenças na avaliação dos imóveis.
— O laudo da CPI está errado, inconcluso — alegou sobre a discrepância de valores.
Segundo ele, a área desejada pelo Executivo não pode ter construções, sendo estimada em R$ 980, enquanto os imóveis do Município valiam cerca de R$ 1,5 milhão.
— E vim falar de mim? Que eu fui covarde? Covarde foi o senhor em não aceitar. (...) A denúncia estava correta. O Município estava tomando prejuízo — criticou.
Para Israel, Edsom tentou enfiar a permuta “goela abaixo” do Executivo.
Presidente da CPI
se pronuncia
O presidente da comissão, Anderson da Academia (Republicanos), também solicitou direito de resposta. Afirmou aos presentes ter atuado sempre em consonância com o Regimento Interno e as orientações jurídicas da Procuradoria. Sobre a não quebra do sigilo telefônico do presidente, respondeu que o pedido não condizia com o contexto da investigação.
‘Corta o microfone’
Apesar do pedido de Edsom para ter o direito à fala novamente, Israel solicitou a leitura do próximo projeto. Com a insistência de Edsom, o presidente determinou o corte do microfone.
— Corta o microfone dele — pediu.
Ao fundo, é possível ouvir Edsom dizer: “O senhor foi covarde comigo”.
Não terminou
Edsom e Israel voltaram a ter novo atrito minutos depois, quando Israel disse não ter citado nenhum nome em sua fala.
— Não usei o nome do senhor, se a carapuça serviu o senhor amarra ela — alegou.
— A palavra está com o senhor ou comigo? — questionou Edsom.
Ele ainda acrescentou:
— Em 2025, estaremos frente a frente, para resolver todas as pendências administrativas — disse Sousa.
Israel, então, respondeu antes de dar continuidade à condução dos trabalhos.
— O senhor tentou cinco vezes, perdeu as cinco na Justiça e vai perder mais uma — disparou Israel.
‘Mais consciência’
O líder do PDT na Câmara, Lauro Capitão América, abordou a discussão ao final da reunião.
— Eu acho que nós, como representantes do povo, temos que deixar um pouco de lado certos tipos de ocasiões — frisou.
Reconheceu ser natural, em determinados momentos, a exaltação. No entanto, defendeu mais calma para não haver arrependimento posterior das falas e atitudes cometidas no calor do momento.
— Tentem pregar mais a consciência de saber que, do outro lado, não importa a ocasião, sempre tem um ser humano — sugeriu.
Para ele, as discussões não fortalecem nenhum dos lados, apenas quem está fora do Legislativo.
— Todo mundo que está de fora quer isso mesmo, que essa Casa pegue fogo, que as coisas saiam do eixo — concluiu.
Conclusões
Como a troca dos terrenos não se concretizou, a comissão avaliou não ter ocorrido prejuízo ao patrimônio municipal. No entanto, recomendou maior rigor em avaliações imobiliárias em futuras negociações de permutas, com peritos independentes e revisão dos laudos por órgãos externos.
— A investigação identificou discrepâncias nos valores de avaliação e falhas procedimentais no processo de negociação, mas tais inconsistências foram verificadas apenas após a aprovação legislativa, por meio de laudos técnicos e denúncias formalizadas posteriormente — apontou a comissão.
Apesar da aprovação do projeto no Legislativo, a CPI também alegou que, na época, os vereadores não tinham conhecimento de qualquer indício de inconsistências e, por isso, apenas cumpriram sua atribuição com base nas documentações oficiais e prezando pelo princípio da boa-fé.
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