Carregando clima…
Domingos Sávio Calixto

Argentina derrotada: quando o futebol devolve uma lição

Por Bruno
Argentina derrotada: quando o futebol devolve uma lição

CREPÚSCULO DA LEI - ANO VIII – CCCLVIII

A Copa do Mundo não é apenas futebol. Ela é um espectro de tensões políticas em um tempo-espaço onde nações projetam suas habilidades, suas tradições e suas angústias. Sob esse aspecto, há que ser dito que a vitória da Espanha sobre a Argentina confrontou, ainda que simbolicamente, uma narrativa de contumaz de repetições em torno de discursos racistas e práticas antidesportivas.

Nesse sentido, o futebol possui uma constante capacidade de devolver às sociedades aquilo que elas insistem em negar sobre si mesmas. Afinal, como observava o filósofo PIERRE BOURDIEU, o esporte é também um campo de produção de símbolos, onde se reproduzem relações de poder, distinção e reconhecimento.

Ora, é notório que parte da torcida argentina naturalizou cânticos racistas dirigidos aos brasileiros, reduzindo-os ao insulto de "macaquitos", ou “mongos” (...). Não se trata de afirmar que esse comportamento represente todos os argentinos, mas é inequívoco que tais manifestações são deflagradas e— frequentemente — apresentadas em ambientes futebolísticos para ensejar o insulto racial como fôlego a superadas hierarquias históricas da humanidade

Por isso, quando o futebol devolve uma derrota, ele pode também produzir um efeito moral. Não porque exista uma justiça automática nos gramados, mas porque toda narrativa de superioridade encontra, cedo ou tarde, seus próprios limites. A derrota argentina fez recordar que nenhuma identidade nacional pode reivindicar uma posição permanente de grandeza. 

Outro filósofo, CARL SCHMITT, afirmava que a política se organiza em torno da distinção entre amigo e inimigo. O problema é que essa lógica ultrapassa o campo institucional e passa a estruturar identidades culturais inteiras. O nacionalismo transforma-se então em moralidade absoluta, e o adversário deixa de ser apenas um competidor para tornar-se alguém considerado inferior, um inimigo e, lamentavelmente, o futebol tem potencialidade para reproduzir esse mecanismo de construção do “inimigo”. 

Daí, a camisa deixa de representar apenas um time e converte-se numa identidade justificante de qualquer comportamento, inclusive insultos raciais. É justamente aí que o esporte perde sua dimensão estética e aproxima-se da barbárie simbólica.

Talvez o maior ensinamento da final da Copa do Mundo não esteja no placar de “um a zero”, mas nos reflexos da condição política interna no país do Tango, em face de um anarcocapitalismo que impõe aos seus cidadãos um duro regime econômico, altamente excludente, de opressões sociais e perdas salariais.  Outrossim, há que se deduzir que muitos torcedores levarem tais rancores em suas bagagens, com claros intuitos de despejarem (suas) angústias naqueles gramados.

Corolário, a vitória espanhola pode ser lida não só como um convite à humildade esportiva, mas também política. Afinal nenhuma hegemonia é eterna e nenhum campeão permanece invencível e nenhuma narrativa de superioridade nacional está acima da crítica. A própria seleção derrotada reproduziu uma fenomenologia incomumente antidesportiva, condizente paradoxal ao discurso que emerge do desrespeito às normas legais sofrido (lá), em sua sociedade.

Portanto, quando uma derrota desmonta uma pretensão de superioridade, realmente ela deixa de ser apenas esportiva. Nenhuma glória construída sobre a desumanização do outro é capaz de resistir indefinidamente aos fundamentos do esporte, principalmente do futebol. (Parabéns Espanha!)

Compartilhe:WhatsAppFacebookTwitter

Comentários

Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.

Carregando comentários…