Carregando clima…
Domingos Sávio Calixto

O custo da ignorância: 2 milhões de vidas

CREPÚSCULO DA LEI - ANO VIII – CCCLX

Por Jornal Agora· 2 min de leitura
O custo da ignorância: 2 milhões de vidas

Domingos Sávio Calixto

DIETYRICH BONHOEFFER (1906 – 1945, “Resistencia e Submissão”), expôs elementos contundentes para uma Teoria da Estupidez, os quais permanecem como reflexões esclarecedoras sobre a política e a vida pública. Para o teólogo alemão, a estupidez — frequentemente traduzida como ignorância política produzida e cultivada — representa um perigo ainda maior do que a própria maldade. O mal pode ser identificado, enfrentado e combatido, mas a ignorância organizada, ao contrário, torna-se impermeável aos fatos, rejeita argumentos e transforma a mentira em convicção. O indivíduo deixa de pensar por si mesmo e passa a reproduzir discursos, tornando-se instrumento de projetos danosos que sequer compreende.

Nesse sentido, políticas públicas de saúde dependem da confiança nas instituições, da produção científica, da transparência administrativa e da capacidade da sociedade de distinguir evidências de crenças. Qualquer nível de ignorância que a parvoíce consiga despejar para os apedeutas que a idolatram produz níveis de perigo social alarmantes. 

A praga do político maldoso que produz ignorância abala o centro da esfera pública, desorientando-o. Daí, decisões deixam de ser ajustadas pelo conhecimento acumulado e passam a responder por interesses escusos, narrativas morais ou falsas certezas. O custo desse afrontamento não é apenas econômico, mas frequentemente é medido em sofrimento humano e tragédia.

Nenhuma política pública demonstra isso de maneira tão dramática quanto ao genocídio resultante da catástrofe da pandemia covid-19. O negativismo deliberado da gravidade do momento pandêmico produziu milhões de cadáveres como consequência da difusão maldosa da ignorância, a qual neutralizou escolhas salvadoras que poderiam ter sido efetivadas.

Corolário, estudos da pesquisadora e cientista MARGARETH DALCOLMO demonstram o custo catastrófico da ignorância na causação da mortalidade, direta e indireta, em face daquela pandemia no Brasil. A conclusão da pesquisa demonstra que as mortes no país podem ter ultrapassado DOIS MILHÕES DE VÍTIMAS, exatamente pela incorreção dos dados anteriormente apresentados que consideraram tão somente os óbitos oficialmente registrados por COVID-19, mas excluíram aqueles decorrentes do colapso do sistema de saúde, da interrupção de tratamentos, dos diagnósticos tardios e de outras consequências indiretas da crise sanitária

Nesse sentido, o ponto central é: políticas públicas que exploram a ignorância, ombreadas com desinformação e estimulam desprezo moral pelo conhecimento científico produzem consequências humanas genocidas. A pandemia revelou que a ignorância, quando convertida em método maldoso de governo ou em instrumento de alienação política, deixa de ser apenas uma deficiência intelectual para tornar-se um fator concreto de produção de sofrimento coletivo e da morte de incautos em larga escala.

Portanto, a maldade pode destruir vidas, mas a ignorância potencializa suas condições para que a sociedade aceite tal destruição como algo normal, inevitável ou até desejável. Quando a ignorância prevalece, a política deixa de proteger a vida e passa a administrar mecanismos que operam exatamente contra ela. É certo que os responsáveis pelo genocídio covid-19 ainda não foram devidamente responsabilizados. Todavia, sem embargo algum, é uma questão de “salvar vidas” não permitir que esse tipo de gente possa, pelo voto, retornar ao poder.


Compartilhe:WhatsAppFacebookTwitter

Comentários

Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.

Carregando comentários…