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Domingos Sávio Calixto

Brasil 1 X 2 Noruega

Por Bruno
Brasil 1 X 2 Noruega

CREPÚSCULO DA LEI - ANO VIII – CCCLVI

COPA DO MUNDO. A eliminação do Brasil para a Noruega não representa apenas uma derrota esportiva. Ela se impõe como um choque de realidade, como aqueles acontecimentos que obrigam uma nação inteira a abandonar as ilusões que construiu sobre si mesma.

Durante décadas, acostumou-se a acreditar que a (sequestrada) camisa amarela carregava uma espécie de destino histórico, como se o passado fosse capaz de vencer partidas no presente. Cinco títulos mundiais transformaram-se, pouco a pouco, em um grande mito nacional. Mas a história possui uma ironia implacável: ela nunca concede privilégios permanentes.

A filosofia ensina que a realidade sempre cobra o preço das ilusões. Platão advertia sobre as sombras da caverna; Nietzsche denunciava os ídolos; Hegel lembrava que a história avança pela negação das certezas estabelecidas. O futebol, por mais simples que pareça, também obedece a essa lógica.

A Noruega entrou em campo sem carregar o peso do passado. Não precisou provar que era o "país do futebol". Precisou apenas jogar em favor do seu próprio mito, seu único grande jogador do presente. E isso bastou. 

Talvez seja essa a maior lição da derrota, ou seja, a tradição inspira, mas não substitui a realidade presente. A memória emociona, mas não marca gols. O prestígio pretérito não intimida adversários do presente. Há uma dimensão existencial nesse resultado. O ser humano frequentemente confunde identidade com mérito permanente. Por ser grande ontem, imagina-se que se continuará grande amanhã. 

Entretanto, o mundo não reconhece heranças eternas. Ele reconhece competência presente. A eliminação também revela a fragilidade das narrativas nacionais. Em poucos dias, discursos de favoritismo transformam-se em análises sobre crise, renovação e reconstrução. O que parecia sólido mostra-se provisório. O que parecia inevitável revelou-se contingente.

Esse é o movimento da realidade: ela desmonta ficções confortáveis para exigir lucidez. No fundo, perder para a Noruega talvez seja menos doloroso do que permanecer prisioneiro da ideia de uma superioridade natural. Porque toda convicção de excepcionalidade contém, escondido em seu interior, o germe da estagnação.

Nesse sentido, os fracassos possuem uma virtude fundamental: devolver o ser humano ao princípio da humildade. Eles recordam que ninguém vence por decreto da história, por fama acumulada ou por nostalgia coletiva. A reação pode ser a busca de culpados, a repetição de velhos discursos ou a coragem de reconhecer que o mundo mudou e exige novas respostas. Quem insiste em viver apenas da memória acaba descobrindo, dolorosamente, que o passado não entra em campo.

Portanto, o resultado adverso não apaga a história do futebol brasileiro, mas impede que ela seja utilizada como escudo contra o presente. Talvez esse seja o verdadeiro sentido filosófico da eliminação. A realidade rompeu a narrativa confortável e obrigou o Brasil a olhar para si mesmo sem o filtro da nostalgia.

Assim, toda crise é, antes de tudo, uma oportunidade de abandonar ilusões. E nenhuma reconstrução começa enquanto houver insistência em acreditar naquilo que já fomos. Isto é dolorido, mas não somos mais.

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