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Preto no Branco

Contaminação?

Por Bruno
Contaminação?

Contaminar o debate da disputa eleitoral. Essa foi a alegação do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), para a retirada do projeto que tipifica a misoginia como crime da pauta da Casa. Será? Tanta coisa que faz isso, e se fazem de cegos. Mas, quando o assunto é importante e merece uma atenção especial são tantas desculpas esfarrapadas que parece piada. A decisão causou divergências entre governo e oposição e até mesmo dentro da própria bancada feminina. Com isso,  ficou decidido que o texto não será levado ao plenário até o fim das eleições. E olha que o projeto, já aprovado por unanimidade no Senado. Mas, com alguns bonitões, a maior parte machistas, não poderia ser diferente: estão com "medinho" de perder votos. E as mulheres que se danem! E muitas delas ainda votam neles, isso que é doído.  

Prisão 

A proposta define misoginia como a conduta que exterioriza ódio ou aversão às mulheres e a equipara, em determinados casos, aos crimes de preconceito e discriminação. A proposta prevê pena de dois a cinco anos de prisão, além de multa, e amplia punições para crimes contra a honra praticados contra o sexo feminino, especialmente em contextos de violência doméstica. No entanto, apesar de escancarada em todo país, e cada dia apresentando números maiores e perigosos, para os nobres representantes do povo no Legislativo nacional, não tem pressa, pode esperar. Para que apoia um Motta da vida, mesmo sendo mulher, acha normal. E isso é realmente preocupante. 

Licença para matar 

Isso precisa ficar claro na cabeça das  pessoas e na busca por soluções. Vai da violência doméstica ao feminicídio. A gravidade da misoginia no Brasil se mede em números que não deixam dúvida. Somos um dos países que mais matam mulheres no mundo. O feminicídio, tipificado em lei, segue crescendo porque o ódio à mulher ainda é tratado como “crime passional” ou “questão de família” por parte da sociedade. A cada dia, mulheres são agredidas, estupradas e mortas por ex-companheiros que não aceitam o fim de um relacionamento, por chefes que se sentem no direito de assediar, por desconhecidos que acham que o corpo feminino é público. Por isso, enquanto a misoginia for vista como opinião ou piada, ela seguirá sendo licença para matar. A raiz não é só criminal, é cultural: desumanizar a mulher é o primeiro passo para justificar a violência contra ela.

Pode ilustrar 

Não tenha dúvida de que algumas atitudes contra a prefeita Janete Aparecida (Avante) durante as negociações sobre a greve no transporte público, em Divinópolis, ilustra muito bem esta situação vivida pelas mulheres a cada dia. Críticas, risos e insultos pelo simples fato de ela ser mulher. Não foi fácil durante todo o processo, mas não para uma liderança destemida que foi até o fim, e só sossegou quando conseguiu seu intento que foi normalizar o transporte para a população. Mas, infelizmente, me arriscaria a dizer que pelo menos 97%  das mulheres não são assim. Seja por tradição, obediência e por não acreditarem nelas mesmas temendo serem colocadas à prova ou ridicularizadas. 

Disfarçado de 'normal'

O lado mais grave da misoginia no Brasil é o que não vira manchete. É a mulher que ganha 21% a menos que o homem na mesma função. É a mãe solo que é julgada por trabalhar e também por não trabalhar. É a política que tem o microfone cortado e a aparência comentada em vez das propostas. É a menina que ouve desde cedo que engenharia “não é coisa de mulher” e abandona o sonho antes de tentar. Essa prática condenável do dia a dia é silenciosa e sistêmica. Ela trava carreiras, adoece mentalmente e mantém mulheres fora dos espaços de decisão. Não basta punir o agressor de um caso extremo se a estrutura continua dizendo que lugar de mulher é onde mandam ela ficar.

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