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Domingos Sávio Calixto

Da dissonância cognitiva e a moral da dupla direção

Por Bruno
Da dissonância cognitiva e a moral da dupla direção

CREPÚSCULO DA LEI – ANO VIII - CCCXVI

Em 1956, um pesquisador e psicólogo chamado LEON FESTINGER (1919-1989) ocupou-se de estudos bem específicos sobre o comportamento social, resultados devidamente detalhados no livro “Quando a Profecia Falha” (When Prophecy Falls, 1957).

Qual foi o estudo?

Festinger se infiltrou e acompanhou uma seita que se autodenominava “Os Buscadores” (The Seekers), a qual era liderada por uma mulher chamada Dorothy Martin. 

Esta tal Dorothy, tida como líder espiritual, dizia que recebia vozes dos habitantes extraterrestres do Planeta Clarion (?) e que, segundo ela, as mensagens recebidas davam notícias do mundo sendo “destruído” nas primeiras horas do dia 21 de dezembro de 1954 por uma grande inundação.

Ora, os membros da seita acreditavam piamente na Sra. Martin, afinal tinham-na como pessoa iluminada, com aptidões proféticas e intimamente ligada às forças celestiais. Portanto, todos se sentiram privilegiados, afinal, tal qual uma arca de Noé espacial, um “disco voador” viria dos céus naquela data para salvá-los (oh, glória!!!).

Assim, como verdadeiro “povo” escolhido para a salvação, a membresia da seita se pôs efetivamente ao preparo para a derradeira da partida. Era o prenúncio de uma nova era. Nessa convicção, abandonaram os respectivos empregos, venderam todos os bens – inclusive casas – e se desfizeram de todo o dinheiro naqueles momentos considerados de “despedida”.

(...)

Enfim, chegou a grande data. Todos reunidos, aguardando com elevada carga de angústia, euforia e ansiedade. Entretanto, passada a meia-noite, passou também todo o dia “profetizado”. Aliás, passaram-se muitos dias e... NADA!ABSOLUTAMENTE NADA DE ETs!!!

O que aconteceu em seguida?

Ocorreu que, como forma de dirimir a falsa convicção criada, os membros da seita trataram logo de criar OUTRA, ou seja, passaram a acreditar – conforme a Sra. Martin os convenceu – que “Deus” havia mudado de ideia, e que não haveria mais inundação. O motivo da mudança de planos divinos seria a poderosa “fé” daquele grupo. 

A demonstração de fé da seita teria sido tão grande e forte que teve a capacidade de mudar os planos de “Deus”, evitando o extermínio da humanidade por uma segunda inundação. Desta forma, estes foram os fatos que levaram Festinger a concluir seus estudos sobre aquela seita em uma famosa tese para a psicológica conhecida por DISSONÂNCIA COGNITIVA.

A dissonância cognitiva é, portanto, uma “ferramenta” que o cérebro se utiliza para evitar o sofrimento ou desconforto de uma convicção que foi drasticamente refutada, ao ponto de comprometer toda uma estrutura moral anteriormente solidificada. A dissonância cognitiva faz com que o indivíduo procure uma “nova lógica” para manter seu velho comportamento, não admitindo nem os equívocos produzidos, nem um novo modo de conduta. Buscar nova justificativa é mais fácil que mudar de comportamento!

A dissonância cognitiva é, portanto, um dos males dos tempos atuais, facilmente observável, por exemplo, na idolatria por alguns MITOS por aí que, mesmo cabalmente demonstrados equivocados, ainda assim se escondem em novas narrativas para sustentar, manter e ocultar velhas convicções.

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