Dois casos de contumácia midiática

CREPÚSCULO DA LEI – ANO VII – CCCXXIII
CASO 1. A Rede Globo está “comemorando” 60 anos de existência, 60 anos de serviços prestados, mas também relacionados à ditadura militar imposta ao país em 31 de março de 1964. Diga-se, não foi por acaso que a RG foi criada logo após o golpe, praticamente um ano depois (26 de abril de 1965).
Sim, amparada pela ditadura, a RG pode estruturar confortavelmente seu oligopólio com total apoio para produzir “legitimidade” ao regime de exceção em vigência, funcionando como “soft power” para o establishment da ditadura.
Antes mesmo de a TV ser inaugurada, a empresa já combatia as políticas trabalhistas, compondo um cerco de “forças ocultas”, que depois resultaram no suicídio de Vargas. A RG também sustentou a narrativa midiática da marcha “da família com Deus pela liberdade”, que conduziu à retirada militar de João Goulart da presidência (Ainda faz parte dos estudos políticos sobre o golpe de 64 o “festivo” editorial do jornal “O Globo”, 1º. de abril daquele ano, estampando em manchete: “RESSURGE A DEMOCRACIA!”).
Em 01 de setembro de 2013, p.15, a escambo da hipocrisia e do cinismo, o jornal Globo admitiu como verdade, uma “verdade dura”, ter apoiado o golpe. Alegou, com melancolia de porteira caída, que “o apoio foi um erro; o reconhecimento do erro é necessário”. A RG alegou que ficou ao lado de outros jornais apoiadores do golpe - como Folha de São Paulo (vide abaixo), Jornal do Brasil e Correio da Manhã - em razão do medo (?), medo de João Goulart (...), que tinha 70% de aprovação à época.
Recomendam-se, como conferência de dados, os documentários: a. “O Dia que durou 21 anos”, b. “Muito Além de Cidadão Kane”.
CASO 2. O envolvimento no golpe de 64 do jornal Folha de São Paulo é emblemático no episódio de 17 de março de 1973 – anos de chumbo. Uma caminhonete (amarela), de entrega de referido jornal, simulou defeito mecânico e permaneceu “parada” durante uma semana em frente ao prédio onde morava o militante de esquerda, Adriano Diogo, 23 anos, em São Paulo.
Depois de dias de espera, de arapongas militares saíram do veículo, foram ao apartamento da vítima, encapuzaram-na e a levaram para o centro de torturas do DOI-Codi, operação Bandeirante, onde foi espancada e barbarizada.
Este episódio – dentre tantos – demonstra o nível de comprometimento do jornal com a ditadura. Tal investigação foi possível mediante as várias diligências da Comissão da Verdade, a qual descobriu o envolvimento de outras empresas, inclusive a Volkswagen, que chegou a firmar um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC ) no valor de R$ 4,5 milhões.
As investigações do grupo Folha incluem também a Folha da Tarde, aquela de manchetes grotescas e violentas contra a esquerda. Aliás, a redação do jornal “funcionava mais como uma delegacia de repressão do que agência de jornalismo, com armas em cima da mesa”, e tudo.
O grupo Folha já apoiava o golpe antes mesmo de sua consumação, inclusive com colaboração financeira. Ao ser questionado – hipocrisia e cinismo - o responsável pelo grupo Folha alegou que, na época, “não havia como resistir a pressões do governo”. (...)
Todos estes dados podem ser conferidos no livro “A serviço da Repressão”, 2024, produzido por professores, Ana Paula Goulart Ribeiro e outros (Recomenda-se como conferência).
Diante dos casos acima, conclui-se pela contumácia midiática, ou seja, mesmos veículos de comunicação envolvidos favoravelmente à intentona golpista de 2023 que teve seu ápice em 08 de janeiro. Distorcem, inventam, ocultam, manipulam, desinformam. Mesmas intenções, mesmos objetivos e uma única proposta: agir contra a democracia, contra as conquistas populares, contra as premissas fundamentais da Constituição.
Graças à contumácia midiática o líder golpista de 2023 continua solto. Tramando. Tal qual uma aranha.
Não se pode descuidar, nem retroceder. Anistia agora é preparo para novos golpes.
Domingos Sávio Calixto é advogado criminalista, e professor de Direito Penal
domingosavio88@yahoo.com.br
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