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Domingos Sávio Calixto

“Adolescência” e a tragédia anunciada

Por Bruno
“Adolescência” e a tragédia anunciada

CREPÚSCULO DA LEI – ANO VII – CCCXX

A minissérie “Adolescência” (Netflix, 2015) é uma cacetada perversa.

A trama desenvolvida denota o procedimento investigatório em desfavor de um garoto de 13 anos, acusado de homicídio contra uma colega de escola.

A questão ali poderia perfeitamente ser abordada na ótica de Michel Foucault e Pierre Bourdieu, principalmente na leitura deste último, quando aborda a estrutura da sociedade masculina em rede de signos estabelecida na obra “O Poder Simbólico” (1989). 

Sim, a minissérie em questão é sobre machismo e masculinidade, sobre a dominação masculina fincada e mantida nas estruturas do estado moderno.

Entretanto, estruturando o poder simbólico também há uma concretagem religiosa para sedimentar a masculinidade ‘teologizada’ na questão masculina.

É evidente que discurso do poder masculino só poderia ter a pretensão de um marco qualquer dentro do próprio imaginário masculino, isto desde os tempos em que a palavra “liberdade” fora discutida em descobertas na escrita suméria, através do termo ama-gi  significando “retorno à mãe”. (2.400 A.C.)

Sob esse aspecto a concepção do materno, como dimensão originária da experiência de liberdade, foi tragicamente usurpada pela mitologia do deus único e masculino, o qual assume o controle da maternidade nos dogmas da criação, bem como detém a única e legítima condição de liberdade, aquela que vai ser distribuída aos seus servos, caso haja o devido “merecimento”.

Assim, o adolescente da minissérie é um repositório dessa confusão envolvendo a subserviência feminina como objeto - destituído da liberdade originária – servindo “em nome do pai” ao poder masculino vigente.

Nesse sentido do masculino, representativo do totem divino, se posiciona o adolescente para submeter o feminino aos seus tabus como (re)compensa e reconhecimento, perpassando tal mérito ao aparato simbólico do estado “virtual” que lhe condiciona a liberdade como “ato de subjugar”.

Esta estrutura de poder simbólico, gerado no masculus virtus,  possibilita toda a estrutura do estado autoritário e do seu conservadorismo na medida em que a microfísica do poder se capilariza e articula submissões de forma normativa, inclusive reproduzindo e sujeitando outros moldes à variadas possibilidades nem tão distintas, como o racismo.

Arautos da masculinidade teojustificante eclodem a esmo, tanto quanto possível e necessário a reserva do discurso, caso ressinta.

Como exemplo (?), surge (tal) frei Gilson encarregando-se da reposição discursal para “lembrar” que a mulher é mera “auxiliar” do homem -  jocosamente,  o próprio frei age em desobediência  ao rigorismo bíblico, não acatando sequer o Levítico 19:27, dito ali que o homem não pode cortar o cabelo de forma arredondada, que deve ter barba e que ela não pode ter sua ponta danificada.

(...) Ao final da minissérie, o pai do adolescente chora copiosamente. Talvez por ele, talvez pelo filho. É aquele choro que remonta ao entendimento sumério de vontade de “retorno à mãe”, marco existencial da palavra liberdade, mas não adianta. O poder simbólico não mais permite.

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