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Domingos Sávio Calixto

Nostros, Los “Macaquitos” Y El Dolor Del Retorno 

Por Bruno
Nostros, Los “Macaquitos” Y El Dolor Del Retorno 

CREPÚSCULO DA LEI – ANO VII – CCCXXII

Quando o Brasil – ainda chamado Pindorama – foi invadido em 1500, as primeiras tentativas de escravidão recaíram sobre a população originária, como (in)devida prática de todo colonizador. Entretanto, a legítima resistência dos donos da terra fez com que o invasor desse início aos procedimentos da captura de africanos em 1530, iniciando o maior e mais cruel período escravocrata da história da humanidade.

Essa barbárie – definida posteriormente como crime contra a humanidade — durou quase quatrocentos anos, vitimizando cinco milhões de almas negras (comparando, a escravatura dos EUA capturou cerca de quinhentas mil vítimas).

Para dar aparência de legitimidade àquele cenário dantesco de trabalhos forçados, açoites, mortes e estupros, os discursos da moral eurocêntrica reduziram misticamente os africanos a seres inferiores, animalescos, primatas, subdesenvolvidos, principalmente através  de argumentos nas crônicas de Eanes de Zurara e Fernão Lopes.

Posteriormente o colonizador substituiu o discurso místico da supremacia europeia pelo biologismo racista de Linnaeus, Cuvier, Galton, Spencer, Gobineau e – principalmenteLombroso, que autorizaram a equiparação dos africanos aos “macacos”, tornando-se a suma retórica injuriosa contra eles, tanto quanto trivial.

De “macacos a macaquitos”, evidentemente que a parte espanhola da América do Sul de tudo participava, mas a questão argentina merece algumas ponderações e especificidades, afinal o porto de Buenos Aires também recebia negros para comércio.

A independência da Argentina teve início em 1810, mas o “fim” da escravidão se deu depois das guerras da independência, com a constituição de 1853 selando, efetivamente, o abandono dos africanos nas terras do rio La plata. Muitos morreram de fome, doenças como cólera, hepatite e diarréias em guetos e cortiços.

Além da orfandade social, boa parte dos negros da Argentina também já havia sido eliminados nas fileiras de batalhões especificamente compostos por africanos, montados para lutar nas batalhas contra os espanhóis, tudo sem receber – propositalmente – as mesmas instruções militares dos demais. Obviamente, foram dizimados.

Além disso, os argentinos também preferiam a mão de obra indígena, substituída posteriormente pelos imigrantes europeus, o que contribuiu para recrudescimento do abandono dos negros, inclusive evitados mediante advertências de saúde pública “orientando”, inclusive, que não houvesse nenhum envolvimento afetivo com “ninguna persona”, aquelas “peligrosas”.

Tais episódios na Argentina podem ser perfeitamente estudados em conjunto com a leitura dos etnocícios, principalmente è época de Domingo Sarmiento.

Sem embargo, foram exatamente os argentinos – já tomados pela repulsa aos africanos – os primeiros a se referirem aos brasileiros como “macaquitos”, no século XIX, durante a Guerra do Paraguai, o que foi seguido também pelos próprios paraguaios.

Todavia, há que se considerar que tal prática já se dava no Brasil, pelos brasileiros contra seus próprios nacionais de pele negra, ou seja, o brasileiro já tinha a prática de ofender tal qual,mas de não ser ofendido tal como.

E a ofensa atinge sobremaneira os brasileiros. Afinal, séculos de escravidão fizeram-no por conceber a real dimensão ofensiva de chamar alguém de “macaco”.

Sim, o brasileiro tem conhecimento do quanto isto é pesaroso, e por isso se utilizou – e ainda se utiliza – desta injúria criminosa contra os negros. Sabe tão bem que ressente, e muito, quando é chamado de “macaquito” em alguns episódios futebolísticos na América latina.

Assim, a máxima se converte empiricamente demonstrada: chamar negros de “macacos” não dói, ainda faz parte da rotina de muitos brasileiros brancos. Não os incomoda. Mas a rotina é hipocritamente quebrada quando a ofensa se volta contra eles mesmos, inclusive brancos. Daí a dor, a dor do retorno (...).

Relembrar a música é preciso: “Alma não tem cor”.

(*) Texto dedicado ao amigo professor João Gontijo, renomado advogado trabalhista.

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