(LÁ SE FOI MEU VISTO DE ENTRADA)

CREPÚSCULO DA LEI – ANO VII – CCCLX
Domingos Sávio Calixto
A democracia é uma utopia.
Entretanto, na contramão do pensamento utópico tradicional, Eduardo Galeano (1940 – 2015) constrói sua própria visão de utopia. Para ele, a utopia não é um ponto final, um paraíso inatingível, mas uma linha no horizonte, ou seja, “caminhamos dez passos, ela se afasta dez passos. Caminhamos vinte, ela recua vinte. A utopia, portanto, não serve para chegarmos, mas para nos manter caminhando”.
Utopia é esta bússola que aponta o caminho perpétuo para um mundo melhor. Neste sentido, a democracia plena é a utopia por excelência. Não a democracia reduzida ao voto periódico, mas a democracia real, viva, que se pratica no cotidiano: a justiça social, a participação popular, a distribuição equitativa da riqueza e o acesso irrestrito aos direitos. É um horizonte sempre a ser expandido, um ideal que se renova a cada conquista, revelando novas fronteiras de luta.
Contudo, este sonho é brutalmente confrontado pela realidade de uma tirania moderna, ironicamente gestada no ventre da "mais antiga democracia" do mundo. A sociedade estadunidense, sob a égide de um déspota atual, encena o espetáculo mais perverso de uma democracia capturada. A retórica agressiva, o ataque às instituições, o desprezo pelos fatos, a produção contínua de guerras, racismo, xenofobia e a semente da divisão e o culto à personalidade tornam-se ferramentas de um poder que se assemelha claramente a uma ditadura.
O atual tirano estadunidense – um conúbio entre plutocrata perverso com pedófilo – está mostrando como é capaz de “governar” não só com mísseis e invasões, mas com tweets e algoritmos. Sua tirania é a do caos orquestrado, da verdade relativizada, do ódio normalizado, desde a produção do maior holocausto da história contra um povo em seu próprio país, campos de concentração, até a perseguição, em via pública, de imigrantes por agentes encapuzados.
Esse ditador conseguiu transformar seu país em um palco teatral de horrores da Insanidade. É a demonstração inolvidável de como as estruturas democráticas podem ser esvaziadas por dentro, enquanto se mantém a fachada de normalidade.
Sem embargo, neste último fim de semana cerca de 20 milhões de sensatos utópicos foram às ruas nas principais cidades estadunidenses, em protesto, exatamente na perspectiva utópica que sustenta a democracia. Foi um protesto denominado “no kings”, contra o tirano laranja que se posiciona como um rei, sem moral alguma, mas se entende como tal. (Que figura tosca e danosa!)
Eis o grande desafio: não desistir da utopia!
Perante o avanço da tirania, a resposta do povo deve ser de caminhar em direção ao horizonte. Lutar pela democracia é lutar pelo inatingível perfeito, sabendo que cada passo, cada resistência, cada ato de desafio é um passo que impede o retrocesso total. Na utopia de Galeano a derrota está em deixar de caminhar. É a caminhada utópica que impede o triunfo definitivo dos déspotas e abre caminho para os ideais democráticos onde o povo, legítimo caminhante, desfila.
Comentários
Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.
Carregando comentários…
