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Política

Mais uma moda

Mais uma moda

Tem coisa que vira moda no Brasil quando não deveria. Primeiro foi a emenda pix. Depois, a renúncia fiscal tratada como política pública permanente. Agora, a combinação das duas. O relatório anexado à ação no STF mostra que produtoras ligadas ao sertanejo, ao forró e ao gospel concentraram quase R$ 90 milhões em benefícios do Perse e, ao mesmo tempo, receberam recursos públicos por emendas parlamentares. Não é ilegal. Mas é, no mínimo, revelador sobre as prioridades do sistema.

O programa nasceu para socorrer um setor devastado pela pandemia, quando eventos foram cancelados, estruturas desmontadas e milhares de trabalhadores ficaram sem renda. O problema é que, no caminho, virou atalho para empresas milionárias, algumas ligadas a artistas que nunca deixaram de lotar shows, vender ingressos caros e fechar contratos milionários. O socorro emergencial virou benefício recorrente.

Quando o dinheiro público escorre sempre para os mesmos bolsos, a pergunta deixa de ser técnica e passa a ser moral. Quem realmente precisa de ajuda? Quem ficou para trás? E por que, sempre que há brecha, ela parece favorecer quem já tem estrutura, acesso e influência política?

Transparência seletiva

O ministro Flávio Dino não questiona apenas o acúmulo de benefícios, mas a falta de transparência que acompanha esse modelo. Estados e municípios não prestam contas de forma clara, planos de ação ficam incompletos, relatórios simplesmente desaparecem. O dinheiro sai. O rastro, não.

Esse apagão de informações não é detalhe burocrático. Ele cria um ambiente onde tudo parece negociável, ajustável, interpretável. Alimenta a sensação de que o sistema funciona bem para poucos e mal para muitos. Enquanto o cidadão comum precisa comprovar cada centavo, cada documento, cada prazo, grandes estruturas atravessam o processo sem explicações proporcionais.

O recado é direto: a regra não vale igual para todos. E esse tipo de permissividade não fica restrito aos gabinetes de Brasília. Ela desce, escorre e se reproduz na base da sociedade.

Onde vamos parar?

Quando a ideia de limite se dissolve no topo, ela também se perde no cotidiano. A violência contra um cachorro comunitário em Florianópolis escancarou isso de forma brutal. Orelha não morreu só por maus-tratos. Morreu em um contexto onde a crueldade virou espetáculo, desafio, entretenimento. Quatro adolescentes torturaram e mataram um animal indefeso.

As punições previstas existem, mas soam pequenas diante da barbárie. E o choque inicial logo dá lugar à rotina. Mais um caso. Mais uma nota. Mais um esquecimento coletivo.

Aqui não se trata apenas de um cão. Violência contra animais não fala só sobre quem apanha, fala sobre quem bate. E, nesse caso, fala sobre crianças e adolescentes. O que estamos formando quando a dor vira brincadeira? Quando o sofrimento do outro vira conteúdo? Quando a empatia deixa de ser ensinada, praticada e exigida?

A comunidade que estamos criando

Existe uma linha invisível ligando a banalização da crueldade, a indiferença e a escalada da violência contra pessoas. Quem acha exagero precisa olhar para Caldas Novas. O corpo da corretora Daiane Alves de Souza foi encontrado mais de um mês depois do desaparecimento. O síndico do prédio confessou o crime e levou a polícia até o local do corpo.

Nada disso surgiu do nada. Havia perseguição, ameaças, medo constante. Um histórico conhecido por pessoas ao redor. O crime foi anunciado em capítulos sucessivos, ignorados ou relativizados. Assim como no caso do cachorro, não foi um ato isolado. Foi o resultado de uma sequência de omissões, alertas tratados como exagero e sinais minimizados até que fosse tarde demais.

Tudo está conectado

Dinheiro público sem transparência, violência normalizada, crimes anunciados que só ganham atenção quando chegam ao desfecho mais trágico. Nada disso acontece em compartimentos separados. É o mesmo país, a mesma lógica, a mesma tolerância ao inaceitável.

Quando a regra é flexível para quem tem poder, quando a brutalidade vira nota de rodapé e quando o aviso só importa depois da tragédia, o problema não é pontual. É estrutural. A pergunta que fica não é apenas “quem errou?”, mas até quando vamos fingir que tudo isso são apenas casos isolados.

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