‘Operação Torradeira’

Augusto Fidelis
No submundo da internet circulam tramas que os simples mortais nem fazem ideia de que tais coisas existam na face da terra. Mas o meu amigo Geraldinho é espoleta, escarafuncha tudo e nada lhe passa despercebido. Por causa disso, Geraldinho está sempre de cabelo em pé, aturdido com as suas descobertas.
A mais recente revelação é que as polícias vão se juntar numa ação medonha, denominada ‘Operação Torradeira’, para fazer uma blitz com o objetivo de pegar todas as pessoas que estiverem dirigindo cheirando a café. O governo quer saber onde as pessoas estão arrumando dinheiro para comprar café e gasolina ao mesmo tempo. Se não estiverem em dia com seus impostos e taxas, vão pagar por tal ousadia. Esses infratores não passam nem na porta da delegacia, é cadeia direto.
Numa determinada época, na década de 1970, o quilo de açúcar custava 450 cruzeiros. De repente, sem mais nem menos, pulou para 500 cruzeiros. Senhor Dorvalino, fazendeiro da melhor estirpe, que amava tomar talagadas de café e fumar seu cigarro de palha de cócoras no alpendre, sentenciou: “Acabou: a partir de agora ninguém mais toma café”.
Gente, Dorvalino não previu que o pivô da crise em 2025 seria o café, numa combinação explosiva com a gasolina, e não o açúcar. As pessoas fitness evitam o açúcar e, como o número é cada vez maior, houve uma trégua na demanda desse derivado da cana, contribuindo para diminuir o consumo. Se o consumo diminuir, a tendência é estancar o preço.
Dona Clotilde está preocupadíssima e nem é com a sua cota de café cotidiana, de manhã e à tarde, mas com a “Operação Torradeira”, reunindo as polícias Federal, Civil e Militar, tendo na retaguarda o Exército, a Marinha e a Aeronáutica. Isso pode desencadear a “Guerra do Café”, um desastre para a nação. No entanto, apesar do seu temor, dona Clotilde declarou com todas as letras: “Se necessário, apesar da minha idade, pego a minha espingarda, cantil e caneca e vou à luta. É uma questão de vida ou morte.”
Por sua vez, a Aninha do Zé do Grilo, ligou para dona Clotilde e lhe foi solidária: “Clotilde, estou com você. Eu não dirijo, não consumo gasolina, mas se mexeu com o café, mexeu comigo. Caramba, a que ponto chegamos neste país, grande produtor de café! Onde está indo o nosso café?”
Ainda hoje, bem cedo, caminhei por várias ruas e ouvi crianças chorando e pedindo café: “Mãe, só um pouquinho”, disse uma delas. Mas, apesar de tudo, é melhor seguir os conselhos de dona Mariquita: “O aconselhável é se manter vivo. Se morre, adeus café!”.
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