Brinde fatal

O Brasil tem uma triste rotina: só age depois que a tragédia se instala. É assim em enchentes, em epidemias, em incêndios, em desastres — e, agora, na crise da intoxicação por bebidas adulteradas com metanol, que atingiu principalmente São Paulo e Pernambuco. Os que se dizem defensores do povo só se moveram, quando casos de cegueira, coma e mortes já estavam estampados nas manchetes. Apenas nesta quinta-feira, após pressão da realidade, aprovou regime de urgência para o projeto que torna crime hediondo a adulteração de alimentos e bebidas com substâncias que colocam em risco a vida humana.
Até então, misturar veneno industrial em bebidas não entrava na lista de crimes hediondos. Como o país pode permitir tamanha brecha legal? Foi preciso que famílias perdessem seu alicerce, que jovens ficassem internados em coma, que trabalhadores perdessem a visão para que o óbvio fosse reconhecido. O atraso, como sempre, cobra um preço altíssimo.
Os números, até a tarde desta quinta-feira, quando este editorial era escrito, mostram 52 notificações de intoxicação no estado de São Paulo, dez casos confirmados e seis mortes em investigação. Mas, infelizmente, a tendência é que quando você estiver lendo este texto, esse número já seja maior. Por trás das estatísticas, histórias devastadoras: um rapaz de 28 anos respirando por aparelhos; uma designer de 43 anos que perdeu totalmente a visão; um advogado de 45 anos que não voltou para casa depois de beber uma vodka comprada em uma adega. Essas vidas foram interrompidas não por azar, mas pela combinação perversa de ganância e omissão estatal.
O metanol não é álcool comum, é veneno. Industrial, corrosivo, usado em solventes e combustíveis. No organismo humano, destrói rins, fígado, nervos, visão, levando à morte em poucas horas. E ainda assim, até agora, adulterar bebidas com essa substância não estava no mesmo patamar de punição de atos bárbaros. Mais uma demonstração de que o Brasil só enxerga o tamanho do problema quando mortes já se acumulam.
O ponto central é esse: o país não trabalha a prevenção. Sempre se espera a tragédia para, então, correr atrás. Depois da destruição, vêm às reuniões de emergência, os projetos em regime de urgência, as promessas de endurecer a lei. E aí se gasta mais — mais dinheiro, mais energia, mais vidas. Este é apenas mais um episódio da longa lista de falhas brasileiras em antecipar o óbvio.
Prevenir custa menos e salva mais. Mas por aqui, legislar e fiscalizar de forma séria nunca foi prioridade até que seja tarde demais. Com o metanol, repete-se a fórmula: a lei só caminha depois que pessoas já perderam tudo. É urgente que o Congresso aprove a mudança sem protelação, e que o Estado, além de punir, finalmente invista em fiscalização real, capaz de impedir que novas vítimas sejam envenenadas em bares, adegas e festas.
Nenhuma norma devolverá a visão perdida, acordará quem está em coma ou trará de volta os que morreram. Mas pode impedir que a lista de vítimas aumente. E essa deveria ser a essência de qualquer política pública: agir antes, não depois. Porque, no Brasil, até brindar com os amigos virou um risco de vida, e isso é inaceitável.
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