Força implacável

As chuvas que atingiram Juiz de Fora e Ubá deixaram até o fechamento desta coluna, por volta das 14h, 22 mortos, centenas de desabrigados e desaparecidos. Segundo a Prefeitura de Juiz de Fora, este já é o fevereiro mais chuvoso da história da cidade, com 584 milímetros acumulados — o dobro do esperado para o mês. Diante de números assim, é preciso reconhecer: há fenômenos que escapam à capacidade humana de controle. A natureza não pede licença, não negocia. Se é impossível impedir a chuva, é plenamente possível reduzir seus efeitos. Todos os anos, tragédias semelhantes reforçam a urgência de obras de drenagem, contenção de encostas, planejamento urbano e fiscalização rigorosa. Não se trata de “culpar” governos por cada temporal, mas de cobrar políticas públicas permanentes que minimizem riscos, especialmente nos pontos historicamente vulneráveis. Nesse aspecto, é justo reconhecer iniciativas positivas. Em Divinópolis, a Prefeitura tem investido de forma significativa em obras de drenagem em áreas conhecidas pelos alagamentos recorrentes. São intervenções que não rendem manchetes festivas nem inauguram praças vistosas, mas que salvam vidas silenciosamente. Prevenção raramente gera aplausos — mas sempre evita lágrimas.
Na política
Além do presidente Lula (PT), que contactou os prefeitos das duas cidades da Zona da Mata, via telefone, outros políticos se solidarizaram e pediram união de forças para as vítimas das chuvas. Um deles, o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), que de Brasília ligou para o vice-governador, Mateus Simões (PSD) sugerindo ações e se colocando à disposição. o presidente da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), Tadeu Leite (MDB), também prestou solidariedade às famílias afetadas. O governador Romeu Zema (Novo), o senador Rodrigo Pacheco (PSD) e vários outros parlamentares mineiros também se manifestaram. “Dor e comoção para todos nós”, resumiu Pacheco. Para uma população mineira, inteira, sem dúvida. Afinal, aquele que não se comove com a dor do outro, não tem sentido sua existência.
Alerta continua
Triste e preocupante. Apesar do desastre que ocorreu entre a noite de segunda e terça-feira, a situação pode se repetir. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), onde um volume expressivo de precipitação deixou um rastro de destruição com mortos, desaparecidos e desabrigados. Conforme o aviso, o volume previsto é de 100 mm/dia até a próxima sexta-feira, 27. O Instituto afirma ainda que há um grande risco de grandes alagamentos e transbordamentos de rios, grandes deslizamentos de encostas, naquela região. No entanto, outras, como o Oeste, também correm riscos. A recomendação é desligar aparelhos elétricos e quadro geral de energia durante o temporal, observar alterações nas encostas e permanecer em local que não ofereça riscos. Infelizmente é o que dá para fazer, visto que a natureza é imprevisível, ainda mais em um período de situação climática tão ameaçadora. Além disso, orar nunca é demais.
Desigualdade
O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Gilmar Mendes, determinou a suspensão dos chamados “penduricalhos” no Ministério Público e no Judiciário. A expressão pode soar pejorativa, mas descreve uma realidade concreta: verbas indenizatórias, gratificações, auxílios e benefícios retroativos que, somados aos salários, elevam significativamente os vencimentos de parte do funcionalismo. Um caso que mais chamou atenção foi o de um desembargador do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Norte, que recebeu R$384 mil em janeiro — cerca de oito vezes o teto constitucional do funcionalismo, atualmente fixado em R$46,3 mil, valor equivalente ao subsídio dos ministros do STF. E ele não está sozinho: ao menos 53 mil servidores no país recebem acima do teto, amparados por mecanismos legais que permitem acréscimos variados. É constitucional? Em muitos casos, sim. Mas é moral? Em um país marcado por desigualdades profundas, onde milhões lutam por renda básica, moradia digna e serviços públicos eficientes, a discussão ultrapassa a letra fria da lei. O teto constitucional foi criado para estabelecer um limite simbólico e prático. Quando esse limite se torna contornável por meio de interpretações e benefícios acumulados, a mensagem transmitida à sociedade é devastadora. Não se trata de demonizar carreiras essenciais ao Estado democrático de direito. O Judiciário e o Ministério Público desempenham funções indispensáveis. Mas também não se pode ignorar que a credibilidade institucional depende, acima de tudo, de coerência ética.
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