Tudo muito perto

No Preto no Branco de ontem, a gente já falava sobre emendas pix, shows bancados com dinheiro público e a dificuldade crônica de saber para onde esses recursos realmente vão. Bastou virar a página para a realidade responder. Sete prefeituras mineiras agora estão oficialmente na mira do Supremo Tribunal Federal por falhas graves de transparência nesse mesmo tipo de repasse. Caxambu, Ituiutaba, Jaboticatubas, Jenipapo de Minas, Juiz de Fora, Machacalis e São João do Paraíso terão 30 dias para explicar o que fizeram com milhões de reais.
E o detalhe que incomoda é sempre o mesmo. Não se trata, ao menos por enquanto, de dizer que houve ilegalidade. O problema é outro. É a opacidade. Planos de trabalho incompletos, relatórios que não aparecem, prestações de contas que nunca chegam. O dinheiro sai, mas o caminho se perde. Quando isso acontece uma vez, é falha. Quando vira padrão, é método.
Nada é por acaso
Os números ajudam a entender o incômodo do STF. Cerca de R$ 90 milhões em renúncia fiscal concentrados em produtoras ligadas ao sertanejo, ao forró e ao gospel. Em alguns casos, empresas que também receberam recursos de emendas parlamentares. Uma delas, inclusive, tem sede aqui em Divinópolis. Está tudo muito perto. Perto demais para fingir surpresa.
Sempre aparece o mesmo argumento. O setor de eventos sofreu na pandemia. É verdade. Mas também é verdade que nem todos sofreram do mesmo jeito. Alguns voltaram a lotar arenas enquanto outros fecharam as portas. Quando o socorro público insiste em parar nos mesmos CNPJs, a pergunta deixa de ser contábil e passa a ser ética. Quem realmente precisava de ajuda?
A confusão interessa a alguém
E se no primeiro tema a falta de clareza envolve dinheiro público, no segundo a confusão tem outro alvo. Gente comum. Beneficiários de programas sociais. O ministro Wellington Dias confirmou o que todo mundo já percebeu. Fake news sobre o Bolsa Família voltaram a circular. Boatos sobre novas exigências, regras inexistentes, ameaças de corte. Tudo falso. Tudo calculado.
Ano eleitoral costuma produzir esse tipo de crime. Não é opinião, é histórico. A mentira vira ferramenta política, e o dano é real. Não é abstrato. É a dona Maria, de 70 anos, achando que vai perder o benefício porque não tem filhos. É o medo usado como arma. Por isso a Polícia Federal entrou em campo. Porque não se trata só de desinformação. Trata-se de crueldade social.
O mesmo fio condutor
O que liga emendas sem transparência e fake news contra pobres? A lógica é a mesma. Opacidade. Informação controlada. Gente que se beneficia quando ninguém entende direito o que está acontecendo. Em um caso, com milhões. No outro, com votos.
E é nesse ambiente que entra outro caso. A proposta de privatização da Copasa. O governo Zema avança com a modelagem para vender ações da estatal e arrecadar cerca de R$ 4 bilhões. Tudo dentro da lei, aprovado pela Assembleia, com discurso de eficiência, investimento e cumprimento do Marco do Saneamento.
Mas, de novo, a pergunta não é apenas técnica. Privatizar para quê? Para pagar dívida. Para cumprir regras fiscais. E depois? Quem garante que a conta não vai parar, como sempre, no colo do cidadão? O governo fala em manter poder de veto, impor limites de voto, exigir expertise do investidor. No papel, tudo muito bem desenhado. Na prática, Minas já aprendeu que promessas não bastam.
Nada é isolado
Emendas pix sem rastro, fake news mirando os mais vulneráveis, privatizações tratadas como solução automática. Não são assuntos soltos. São partes do mesmo cenário. Um país onde a transparência ainda é exceção, a informação virou disputa e a população costuma descobrir o impacto das decisões quando já é tarde.
Talvez a pergunta mais honesta não seja “isso surpreende?”. A pergunta certa é outra. Por que ainda fingimos que surpreende?
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