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Preto no Branco

Não foi desta vez

Por Bruno
Não foi desta vez

A paralisação no transporte coletivo de Divinópolis não aconteceu. O adiantamento salarial foi pago, os ônibus circularam normalmente e a cidade seguiu a rotina. O alívio veio rápido, mas não trouxe tranquilidade, veio acompanhado daquela sensação conhecida de que o problema não acabou — apenas foi empurrado mais uma vez.

O vale-alimentação segue atrasado, horas extras continuam pendentes e o desgaste entre trabalhadores e empresa permanece. Não houve greve porque o dinheiro caiu a tempo. Quando não cai, o roteiro muda. O enredo, não.

Sistema em aberto

O decreto que autorizou o repasse de mais de R$ 8 milhões ao transporte coletivo, que sim, será dividido em parcelas, cumpriu seu papel imediato: conter a crise. Oficialmente, o recurso serve para custear gratuidades e evitar o reajuste da tarifa. Na prática, funcionou como um freio de emergência.

O problema é que os freios não fazem o veículo avançar. O sistema segue sustentado por soluções temporárias, enquanto questões estruturais, como qualidade do serviço, previsibilidade financeira e relação com os trabalhadores, continuam sem resposta.

Nada termina aqui

Chamar isso de final seria exagero. É apenas o encerramento de mais um capítulo de uma história que se repete quase sempre do mesmo jeito. O reajuste salarial se aproxima, propostas do sindicato estão na mesa do consórcio desde dezembro e, até agora, nenhuma sinalização concreta.

Para completar, 2026 é ano eleitoral. E ano eleitoral costuma bagunçar certezas. Mudanças no comando do Executivo podem destravar debates hoje congelados, inclusive o da tarifa. O que hoje está suspenso pode voltar à pauta com força no próximo ato.

Quem decide?

A decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais que autorizou o funcionamento das escolas cívico-militares recolocou um debate sensível no centro da cena. Ao suspender os efeitos da determinação do Tribunal de Contas, a Justiça entendeu que houve extrapolação de competência ao interferir diretamente no mérito de uma política pública.

Mais do que uma disputa jurídica, o episódio escancara um embate institucional: até onde vai o papel dos órgãos de controle e onde começa a autonomia do Executivo para definir rumos da educação? A decisão liminar também levou em conta o impacto prático da suspensão, que afetaria o planejamento do ano letivo de 2026 e mais de seis mil alunos em todo o estado.

Em Divinópolis, o tema ganhou força antes mesmo da judicialização. Das escolas pré-selecionadas, algumas já haviam aprovado o modelo em assembleia, enquanto outras se preparavam para decidir. A cidade se tornou um dos polos do debate, com audiência pública na Câmara que revelou posições bem definidas e pouco espaço para consenso.

Defensores apontam aumento da disciplina e da segurança no ambiente escolar. Críticos questionam o papel dos militares na educação e os limites do modelo. No meio disso tudo, famílias, estudantes e professores convivem com a incerteza, que agora dá lugar a uma trégua jurídica, mas não a uma resposta definitiva.

Cinco anos depois

Minas Gerais completou cinco anos do início da vacinação contra a covid-19. Foram mais de 53 milhões de doses aplicadas, milhares de vidas preservadas e uma das maiores mobilizações de saúde pública da história do estado. Cinco anos parecem muito, até lembrar quantas mudanças cabem nesse intervalo.

A pandemia deixou uma lição difícil de ignorar: quando a resposta vem, os danos são menores. O risco é que, passado o susto, volte o velho hábito de reagir apenas quando o problema já bate à porta. Seja no transporte, na educação ou em qualquer outra área, o medo maior não está na crise, está no esquecimento depois que ela passa.

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