Roteiro conhecido

A Prefeitura de Divinópolis publicou nesta terça-feira, um decreto autorizando o repasse de R$ 8 milhões ao transporte coletivo. O recurso será usado para custear gratuidades e complementar a tarifa, com o objetivo de evitar o reajuste da passagem. O valor será pago em parcelas mensais de R$ 2 milhões, a partir de janeiro de 2026, em meio às dificuldades financeiras alegadas pelo Consórcio Transoeste. Ontem, o debate era a possibilidade de paralisação. Hoje, a pauta muda para o subsídio. Mas o filme é o mesmo: empresa fala em desequilíbrio, prefeitura entra com dinheiro público, parte da cidade critica o aumento do repasse e outra parte defende o congelamento da tarifa. O roteiro se repete há anos, sem solução definitiva.
Mesma história
O sindicato dos rodoviários afirma que ainda não há informação concreta sobre paralisação, mas o transporte coletivo segue vivendo no limite. Tudo funciona no improviso, sempre à beira de uma crise. E essa lógica do “apagar incêndio” não é exclusividade dos ônibus. Em Divinópolis, há outros problemas que também parecem presos a um ciclo eterno de alertas, discursos e poucas mudanças práticas.
Epidemia anunciada
A dengue é mais um caso. Entra ano, sai ano, e a conversa é sempre a mesma. O levantamento do Liraa mostrou que Divinópolis está em situação de alto risco para epidemia e que nove em cada dez focos do mosquito estão dentro das residências. Os dados escancaram a realidade: falar já não basta. Cobrar das autoridades é importante, mas não é o ponto central. Os números mostram que o combate depende, principalmente, de atitudes individuais e urgentes. Enquanto cada um empurra a responsabilidade para o outro, o mosquito segue fazendo o trabalho dele com eficiência.
Quando a resposta demora demais
Essa dificuldade de enfrentar problemas também aparece quando se olha para o passado — e para uma cidade de nome quase igual ao daqui. A Justiça condenou o ex-prefeito de Divisópolis, por fraude em uma licitação realizada em 2003. A sentença reconheceu a montagem do certame para eliminar a concorrência real e direcionar o resultado.
O que chama atenção não é só a condenação, mas o tempo. São mais de 20 anos entre o fato e a resposta do Judiciário. Duas décadas para que um caso de improbidade administrativa tivesse um desfecho. Quando a decisão finalmente chega, o efeito pedagógico já se perdeu, e fica a sensação incômoda de que a Justiça até alcança o passado — mas chega tarde demais para evitar que práticas semelhantes continuem se repetindo.
Quando o silêncio assusta
E há casos em que o risco não está no passado, mas no esquecimento rápido. Já se passou mais de um mês da morte de Henay Rosa Gonçalves Amorim, caso que chocou Itaúna, Divinópolis e ganhou repercussão nacional. Hoje, pouco se fala. O que o Agora apurou é que Alison de Araújo Mesquita, apontado como autor do feminicídio, segue preso no presídio de Itaúna desde 24 de dezembro. As investigações descartaram definitivamente a hipótese de acidente na MG-050, revelando um histórico de violência doméstica, agressões durante a viagem e imagens de pedágio que foram decisivas para a mudança do rumo do caso. O inquérito segue em tramitação.
O problema é que, passado o impacto inicial, o silêncio volta a dominar. O medo é esse: que, depois de um mês, tudo seja esquecido — assim como tantos outros problemas citados nesta coluna, que aparecem, desaparecem e retornam como se fossem novidade.
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