Hai Kais – Uma tradição poética de questionamento

Diante de nós, na bela cidade de Formiga/MG, nos dias 25 e 27 de julho, a beleza e a literatura. Arquitetura e aconchego. Bibliotecas e cidadania. Foi assim na Iª FLIFOR: Encontro de Coletivos Literários, apresentações de escritores e muita troca de poesia. Uma conquista do Coletivo POESIA DE RUA da cidade.
Foi quando, num abraço poético, o agitador cultural Antônio Souza (de Maria da Fé/MG) me passou um livro, afinado com as minhas últimas leituras: os haikais. Era o livro HAICAIXAMBU, do poeta Antônio Maciel Botelho Machado (Caxambu/MG, 2025), com a linguagem dos haikais (ou haikus), tradição poética japonesa, que se caracteriza pela brevidade, com apenas três versos e 17 sílabas poéticas.
Hoje então, quero apresentar alguns autores de Hai Kais. Comecemos pelo livro ganho, Haicaixambu, para vocês se apropriarem dessa forma poética, sob a verve de Maciel Machado.
Um conflito intermitente Não tem problema
Entre o meu Eu o que sobrar
E o seu Você vira poema
Eita Vida ingrata O poeta vai além
hoje você vive de dia faz poesia
amanhã ela te mata e de noite também
A tradição dos haikais no Brasil vem de longa data. Tivemos grandes poetas que de -
senvolveram esta arte por aqui: Guilherme de Almeida, Olga Savary, Mário Quintana, Leminski, Alice Ruiz, Carlos Nejar, Millor Fernandes e outros. Vamos inicialmente mostrar um haikai de um dos precursores da no Brasil: Guilherme de Almeida. Leiam então um haikai do início do século XX.
NOTURNO
Na cidade, a lua:
a joia branca que boia
na lama da rua.
Mas temos também os famosos poemetos da dama dos Haikais, a poeta Olga Savary.
IDADE DA PEDRA
Querer, quero agora
ritmo de existir da pedra
na paz das cavernas.
HOMEM
Sem métrica e sem rima
um bicho sim é o homem
provido de asas
Outro poeta marcante nos Hai Kais foi o gaúcho Carlos Negar. De sua antologia A IDADE DA AURORA, leremos a singeleza e a beleza destes hakais.
O náufrago Favos e tranças:
engole pego em palavras
o mar da minha infância
Soltos e corpos. Amor, amor - gritavas
Amada, erramos E eu não tinha palavras
De um para o outro. E nem elas te escutavam.
Mas quem melhor desenvolveu o haikai no Brasil, foi o poeta marginal Leminski. Vamos nos deleitar com poemas que marcaram a poesia dos anos 1970.
Enfim Esta vida é uma viagem
nu, pena eu estar
como vim só de passagem
muito romântico pra que cara feia
meu ponto pacífico na vida
fica no atlântico ninguém paga meia
Com uma escrita bastante irônica e provocativa nos seus haikais, apresento também o humorista e multiartista Millor Fernandes. Vamos conhecer as tiradas dele!
Vê-se, pelo trajar Na poça da rua
Que seu estado civil o vira-lata
É militar Lambe a lua.
E entre os autores contemporâneos, destaco um poeta negro, com sua poesia de rua, na cidade de Recife (PE). No livro MIRÓ ATÉ AGORA, temos muitas surpresas com os poemetos fortes na crítica social do poeta Miró.
FATO
troco meu revólver
por comida lazer
educação e moradia.
Disse o cara de perifera.
NOTÍCIA DE ÚLTIMA HORA
quem pensava achar num caminho
uma bala perdida
no exato momento em que nada procurava
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