Lançamento do livro Cavalo: a lírica de Lucas Galvão

Cenário: Bar Palco e Balcão, um bar em estilo barroco, onde vivencia-se música, poesia e onde se encontram todas as tribos culturais da cidade. Os poetas da cidade estavam lá. Sejam os desatinados ou os felizes, os revolucionários ou metafísicos, os sociais ou lendários marginais. Todos os poetas, estavam ali. Passaram por mim, David Dioli, Daniel Bicalho, Marcelo Martins, Zé Heleno, Manuel Veronez, Rod, as damas da poesia, Ana Cláudia Gonçalves e Clara Valverde...e por aí vai, chegando os demais poetas para a festa de lançamento do livro CAVALO: POESIA PRA SE LER DE PÉ, do mago declamador e poeta social Lucas Galvão.
No ano passado, nessa coluna, já falei de seus poemas bem lúcidos, anarquistas pedradas, de forte denúncia ao capitalismo estúpido de nosso país. Lucas Galvão, com uma verve marginal, é lírico, é irônico, é triste quando traz personagens e situações do cotidiano da classe trabalhadora. Exemplo? No poema DÁDIVA, sobre o final de vida do trabalhador, conclui feito um punhal rasgando nossa percepção: “ainda dizem que isso é vida / ainda dizem que é uma dádiva”.
Mas por que o nome CAVALO? CAVALO foi um antigo amigo que o autor busca na memória, um senhor negro, de nariz comprido, trabalhador honesto, calado, cujo nome se perdeu, mas que ficou dele, o apelido denunciante: Cavalo!

Vamos então sentir seus versos. Leiam e tirem suas conclusões. Já no primeiro poema, que abre o lado um de seu livro, temos uma fina ironia de forte apelo.
CONSTRUÇÃO CIVIL
Eis que nasce saudável
anda cedo
fala cedo
brinca com seus
caminhõezinhos
pazinhas
tijolinho
pega areia de um lugar
leva para outro lugar
ergue muros
cava buracos
tem jeito para a coisa
construir castelos
e morar de aluguel.
Querem mais! Vejamos outro poema com uma dramaticidade, que só quem viveu a experiência da pobreza, reconhece de cara estes versos.
VÉSPERA DE NATAL
A água barrenta vai achando caminho
Sem bater na porta
E quase sai pela janela
Batendo acima da canela
Do caçula que enquanto ajuda
A subir os móveis bate o dedo
No sofá que quase boia
A mãe que perdeu quase tudo
Acha graça.
E o poema já citado, DÁDIVA:
6 vezes por semana
limpando privada
varrendo rua
pintando muro
colando tijolo
vendendo o que puder
sorrindo quando dá
dormindo mal
comendo mal
enquanto
a cerveja
a cachaça
em doses diárias
arrastam os nãos
em direção à fila do posto
ainda dizem que isso é vida
ainda dizem que é uma dádiva.
No Lado Dois do seu livro, Lucas Galvão nos brinda com um poema, que para mim, é uma resposta àqueles que amaciam a poesia, com a ideia de que poema não pode falar da vida brutal.
PALAVRA DE LUXO
Seu Joaquim
viveu até os 85
filhos teve 7
netos, 9
já morou na roça
favela
prédio
com parentes
de favor
trabalhou de lavrador
pedreiro
porteiro
parou de fumar aos 40
de beber aos 70
chorou em público
quando o América
subiu para a primeira divisão
foi à praia 3 vezes
no mar entrou 2
nunca falou
nem ouviu
eu te amo.
CLÁUDIO GUADALUPE
Poeta integrante da ADL e do ARTEFERIA
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