Poesia - A Nossa Resistência Cultural VIII

A nossa resistência continua. Estamos na oitava edição de novos e bons poetas da cidade. Hoje conheceremos uma menina que tem muito a dizer e por outroa lado, um autor, infelizmente já falecido, com uma verve da poesia popular. Falamos da estudante Laise Teixeira Silva e do declamador José Maria da Silva. Então vamos lá conhecer suas poesias.
Laíse Teixeira da Silva, uma poeta de 17 anos, estudante no CECRI, desde pequena viveu em contato com a pintura, desenhos, esculturas e textos. Uma criação assim, só a levou a ter muita sensibilidade e imaginação. Como poeta se percebe então, com uma “linguagem espontânea, lírica, suave, sob os ecos da existência”. Já demonstra uma verve poética potente, contemporânea, com imagens decorrentes das artes em ”pincéis, palavras e silêncios”. Vamos ler um metapoema, onde nele deslumbra-se o olhar criativo da jovem poeta.
TODA FORMA DE POESIA
Poesia é vento que dança no tempo,
é brisa que sopra sem pedir licença,
é o grito calado, o segredo, o lamento,
é flor que desabrocha em plena ausência.
Nasce quando o mundo se cala,
e o sentir encontra abrigo no papel,
surge num gesto distraído,
num tilintar, num olhar ao céu.
É verso rimado ou livre corrente,
é prosa que esquece o fim da linha,
é pedra no peito, sorriso na mente,
é dor que se veste de alma sozinha.
Veste-se de metáforas ou anda nua,
fala alto em palcos e baixa nos cadernos,
sorri com os olhos das crianças,
chora com as mães em adeuses eternos.
É haicai breve, trovador cantador,
é soneto preso em métrica antiga,
é slam de rua, é eco, é clamor,
é oração que do peito abriga.
É tinta no muro, rabisco no caderno,
é lágrima oculta em carta de amor,
é sombra da lua em silêncio eterno,
é riso de infância, é grito, é ardor.
Não escolhe moldura nem forma definida:
pode ser dança, canção, pintura,
palavra jogada no meio da vida,
ou silêncio compartilhado na ternura.
É corpo que dança, é voz que protesta,
é o tempo suspenso na folha caída,
é tudo que pulsa, que grita e que resta,
é alma transcrita na carne vivida.
Há poesia no que quebra,
no que recomeça,
no que nunca se explica —
mas pulsa e permanece.
Toda forma de poesia é vida,
mesmo quando parece morrer —
porque mesmo calada, esquecida,
ela insiste em nascer e renascer.
É só uma forma da alma dizer
que sente.
O nosso segundo poeta de hoje, muito marcou as Noites da Poesia na Biblioteca Pública Ataliba Lago, o reconhecido José Maria da Silva. É uma homenagem póstuma a um poeta de um tom bem popular, com linguagem assertiva e quem o conheceu vivo, vibrava com o declamador tristonho e forte! Vamos ter o contato com um dos seus poemas, do livro NÁUFRAGO DE MIM MESMO, ligado ao tema da natureza, externa e interna dos seres humanos.
CHUVA
Chuva que pipoca no telhado
Que surra o peito querendo machucar
Querendo fazer sangrar
Um peito já calejado.
Que molha a relva, a selva e a serra
E que no atrito com as irmãs
Fazem do leito do rio salpicar,
Que apaga a poeira desta terra,
E entra em guerra com meu peito
Que meio sem jeito se sente acabado.
Olho a chuva pelo vidro da vidraça
E a gente que passa em ritmo acelerado
Nuvens que choram e lacrimejam
E as pessoas humanas as invenjam.
Que faz nascer as sementes e dói
Cruelmente a dor tirana
Chuva que cai do céu no telhado batuca.
Chuva que cai nos olhos machuca.
Cláudio Guadalupe
Poeta integrante da ADL e do ARTEFERIA
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