Para que serve mesmo a poesia? (Parte 2)

Para que serve mesmo a poesia? Foi o tema da semana passada. É hora de continuar. Mas vamos ligar o tema à situação social-política do país: a intervenção do Governo Trump na soberania do Brasil. Qual pátria então defendemos?
Mas o que a poesia tem a ver com isso? Ora, os poetas são as antenas de qualquer povo. Sabem discernir e denunciar a situação das nações. Foram vários os poetas brasileiros que trataram da questão da PÁTRIA. Desde o romantismo, com o poeta Gonçalves Dias, na “Canção de Exílio” (Minha terra tem palmeiras/ Onde canta o Sabiá / As aves, que aqui gorjeiam / Não gorjeiam como lá...), o tema nacional está sempre presente nos versos dos poetas. Vejamos alguns deles.
Comecemos pelo poeta Vinícius de Moraes, em homenagem aos 45 anos da sua morte. O poetinha fez uma declaração carinhosa à pátria brasileira, no poema abaixo.
PÁTRIA MINHA (Fragmento)
...
Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.
Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias, pátria minha
Tão pobrinha!
...
(Antologia Poética Vinícius Moraes, Companhia das Letras, 2009)
Nesta semana, eu também escrevi um poema, que aqui apresento. Penso numa pátria, sem a traição de políticos, que pensaram o golpe e agrediram a democracia.
VEJO NA MINHA PÁTRIA (fragmento)
Na minha pátria
entram os meninos palestinos, curumins amazônicos
de olhares melancólicos, frios e dilatados
Entram os incriminados sem culpa
que estão no limbo
da história, aprisionados
Entram os mansos calados
que não recusam o cálice diário
do envenenado mercado.
Entram os puros desprezados
que em suas cruzes extravasam
o gesto e o grito dos injustiçados
Entram na minha pátria
os operários que laboram as coisas e frutos
mas nunca as consomem, vilipendiados
Entram as mulheres casadoiras
que trabalham só em casa, afogadas
num cotidiano do gênero escravizado
...
Mas não entram na minha pátria
os traidores que a vendem, Joaquim Silvério
e outros mais, no negócio ordinário
Não entram aqueles representantes
que nada representam de fato
marionetes dos interesses milionários
Não entram os pastores sem alma
que entorpecem seus seguidores
com moeda e vão fartos de pecados
Não entram os pulhas
que detêm os cargos e os salários retirados
dos seus subordinados
Sim, na pátria que vejo
há espaço para todos
menos aos indecorosos, traidores odiados
Por fim, há um poema elucidativo quanto à possibilidade da construção de uma futura PÁTRIA LIVRE, com justiça e soberania. Leiam o poema abaixo
JÁ FAZ TEMPO QUE ESCOLHI
A luz que me abriu os olhos
para a dor dos deserdados
e os feridos de injustiça,
não me permite fechá-los
nunca mais, enquanto viva.
Mesmo que de asco ou fadiga
me disponha a não ver mais,
ainda que o medo costure
os meus olhos, já não posso
deixar de ver: a verdade
me tocou, com sua lâmina
de amor, o centro do ser.
Não se trata de escolher
entre cegueira e traição.
Mas entre ver e fazer
de conta que nada vi
ou dizer da dor que vejo
para ajudá-la a ter fim,
Já faz tempo que escolhi.
(Mello, Thiago de. Mormaço na Floresta, Rio de Janeiro, 1981)
CLÁUDIO GUADALUPE - Poeta integrante da ADL e do ARTEFERIA
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