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Cláudio Guadalupe

 Para que serve mesmo a poesia? (Parte 2)

Por Portal Agora
 Para que serve mesmo a poesia? (Parte 2)

Para que serve mesmo a poesia? Foi o tema da semana passada. É hora de continuar. Mas vamos ligar o tema à situação social-política do país: a intervenção do Governo Trump na soberania do Brasil. Qual pátria então defendemos?

Mas o que a poesia tem a ver com isso? Ora, os poetas são as antenas de qualquer povo. Sabem discernir e denunciar a situação das nações. Foram vários os poetas brasileiros que trataram da questão da PÁTRIA. Desde o romantismo, com o poeta Gonçalves Dias, na “Canção de Exílio” (Minha terra tem palmeiras/ Onde canta o Sabiá / As aves, que aqui gorjeiam / Não gorjeiam como lá...), o tema nacional está sempre presente nos versos dos poetas. Vejamos alguns deles.

Comecemos pelo poeta Vinícius de Moraes, em homenagem aos 45 anos da sua morte. O poetinha fez uma declaração carinhosa à pátria brasileira, no poema abaixo.

 PÁTRIA MINHA (Fragmento)

...

Se me perguntarem o que é a minha pátria, direi:
Não sei. De fato, não sei
Como, por que e quando a minha pátria
Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água
Que elaboram e liquefazem a minha mágoa
Em longas lágrimas amargas.

Vontade de beijar os olhos de minha pátria
De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos...
Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias
De minha pátria, de minha pátria sem sapatos
E sem meias, pátria minha
Tão pobrinha!

...

(Antologia Poética Vinícius Moraes, Companhia das Letras, 2009)

Nesta semana, eu também escrevi um poema, que aqui apresento. Penso numa pátria, sem a traição de políticos, que pensaram o golpe e agrediram a democracia. 

VEJO NA MINHA PÁTRIA (fragmento)

Na minha pátria

entram os meninos palestinos, curumins amazônicos

de olhares melancólicos, frios e dilatados

Entram os incriminados sem culpa

que estão no limbo 

da história, aprisionados

Entram os mansos calados

que não recusam o cálice diário

do envenenado mercado.

Entram os puros desprezados

que em suas cruzes extravasam

o gesto e o grito dos injustiçados

Entram na minha pátria

os operários que laboram as coisas e frutos

mas nunca as consomem, vilipendiados

Entram as mulheres casadoiras

que trabalham só em casa, afogadas

num cotidiano do gênero escravizado 

...

Mas não entram na minha pátria

os traidores que a vendem, Joaquim Silvério 

e outros mais, no  negócio ordinário

Não entram aqueles representantes

que nada representam de fato

marionetes dos interesses milionários

Não entram os pastores sem alma

que entorpecem seus seguidores

com moeda e vão fartos de pecados

Não entram os pulhas

que detêm os cargos e os salários retirados

dos seus subordinados

Sim, na pátria que vejo

há espaço para todos

menos aos indecorosos, traidores odiados 

Por fim, há um poema elucidativo quanto à possibilidade da construção de uma futura PÁTRIA LIVRE, com justiça e soberania. Leiam o poema abaixo 

JÁ FAZ TEMPO QUE ESCOLHI

A luz que me abriu os olhos
para a dor dos deserdados
e os feridos de injustiça,
não me permite fechá-los
nunca mais, enquanto viva.
Mesmo que de asco ou fadiga
me disponha a não ver mais,
ainda que o medo costure
os meus olhos, já não posso
deixar de ver: a verdade
me tocou, com sua lâmina
de amor, o centro do ser.
Não se trata de escolher
entre cegueira e traição.
Mas entre ver e fazer
de conta que nada vi
ou dizer da dor que vejo
para ajudá-la a ter fim,
Já faz tempo que escolhi.


(Mello, Thiago de. Mormaço na Floresta, Rio de Janeiro, 1981)

 CLÁUDIO GUADALUPE -   Poeta integrante da ADL e do ARTEFERIA   

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