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Cláudio Guadalupe

POESIA: NOSSA RESISTÊNCIA CULTURAL - VI

Por Portal Agora
POESIA: NOSSA RESISTÊNCIA CULTURAL - VI

Após duas semanas, em que apresentamos o olhar crítico de um cineasta divinopolitano e o lançamento de livros na ADL, voltamos à tarefa de manter a publicação de poetas da cidade e da região, hoje com a participação de dois novos escritores: Guilherme de Oliveira e Fabiano Fuscaldi.

Guilherme de Oliveira é um artista das artes plásticas (desenho, ilustração) e como poeta, tem uma linguagem despojada, pós-moderna, um lirismo cotidiano, com um substrato histórico (cursa História na UEMG). Leiam o poema abaixo e vejam como ele tem uma verve poética bem contemporânea.

VINTE E TRÊS 

Se pudesse eu me diria: 

Ri 

Ri de alguns problemas     

pois tudo passa 

igual a vida, passageira. 

ninguém está aí, 

dentro de mim 

Nem eu às vezes 

me encontro aí dentro

Aí se eu pudesse... 

Não posso. Então eu digo 

Ri 

Sorria, mas chore 

Não se afogue, 

deixe a água vazar 

Se eu pudesse me diria hoje ainda 

Antes do dia acabar 

Essas mesmas 24 horas de mil anos atrás 

Penso: será mesmo que não dá tempo mais? 

Em tempos corridos e sem paz 

Sempre parece ser tarde demais 

Mesmo que o dia esteja apenas no começo 

Antes dos pássaros acordarem 

Quando o silêncio domina as ruas 

E os poetas em suas janelas admiram a lua Fazer seu caminho tranquilo e sempre igual 

Eu me olho no espelho como a lua se olha no mar 

me dá um desespero, uma vontade de chorar, 

Por dentro acho que existe um medo 

De nada disso mudar 

Mas no reflexo dos meus olhos eu vejo o sol brilhar 

e repintar o céu de cores indescritíveis 

Impossível de imaginar 

A vida às vezes dá e ora há de tomar 

É boa, bonita e difícil 

Viver não é coisa à toa 

É equilibrar-se em um precipício 

Mas me apego em um sorriso bobo de uma criança, 

Em um amor intraduzível, 

Um novo objetivo 

E vejo o sol brilhar 

Como nunca tinha visto

Quando o silêncio domina as ruas 

E os poetas em suas janelas admiram a lua Fazer seu caminho tranquilo e sempre igual 

Eu me olho no espelho como a lua se olha no mar 

me dá um desespero, uma vontade de chorar, 

Por dentro acho que existe um medo 

De nada disso mudar 

Mas no reflexo dos meus olhos eu vejo o sol brilhar 

e repintar o céu de cores indescritíveis 

Impossível de imaginar 

A vida às vezes dá e ora há de tomar 

É boa, bonita e difícil 

Viver não é coisa à toa 

É equilibrar-se em um precipício 

Mas me apego em um sorriso bobo de uma criança, 

Em um amor intraduzível, 

Um novo objetivo 

E vejo o sol brilhar 

Como nunca tinha visto

Fabiano Fuscald

A segunda contribuição é do poeta Fabiano Fuscaldi, professor de literatura, integrante da Academia Divinopolitana de Letras – ADL, que recentemente lançou como organizador, o livro OBRA COMPLETA DO POETA JÚLIO RÉGIS FUSCALDI, seu pai, também poeta e acadêmico. Sua verve poética tem uma elaboração mais intelectual, com uma intertextualidade elaborada, como no texto a seguir, no qual dialoga poeticamente com o o autor mineiro, o poeta maior, Carlos Drummond de Andrade.

RETRATO NA PAREDE

(A Carlos Drummond de Andrade) 

Cem anos, caro amigo

Cem anos

É o tempo que leva uma escavadora 

Pra sugar tua cidade

Desgastar tua idade

Gangrenar tua paisagem

Minar tua mineiridade 

Cem anos

Cem anos é o que vale

A cota de gratuidade 

De tamanha fatalidade 

Pra que a sanha de maldade

Arremate e arrecade

E cambiar a prioridade

A uma nova propriedade 

Cem anos é o prazo de validade

Pra que a leva exploradora

Perca a força de vontade

Sobre a terra invalidada

Arrasada em estupor

Num tumor que a corrói 

E te anuncie a brevidade

Porque a custa da saudade

De um Carlos de Andrade

É um retrato na parede

E como dói

CLÁUDIO GUADALUPE - Poeta integrante da ADL e do ARTEFERIA    

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