POESIA: NOSSA RESISTÊNCIA CULTURAL - VI

Após duas semanas, em que apresentamos o olhar crítico de um cineasta divinopolitano e o lançamento de livros na ADL, voltamos à tarefa de manter a publicação de poetas da cidade e da região, hoje com a participação de dois novos escritores: Guilherme de Oliveira e Fabiano Fuscaldi.
Guilherme de Oliveira é um artista das artes plásticas (desenho, ilustração) e como poeta, tem uma linguagem despojada, pós-moderna, um lirismo cotidiano, com um substrato histórico (cursa História na UEMG). Leiam o poema abaixo e vejam como ele tem uma verve poética bem contemporânea.
VINTE E TRÊS
Se pudesse eu me diria:
Ri
Ri de alguns problemas
pois tudo passa
igual a vida, passageira.
ninguém está aí,
dentro de mim
Nem eu às vezes
me encontro aí dentro
Aí se eu pudesse...
Não posso. Então eu digo
Ri
Sorria, mas chore
Não se afogue,
deixe a água vazar
Se eu pudesse me diria hoje ainda
Antes do dia acabar
Essas mesmas 24 horas de mil anos atrás
Penso: será mesmo que não dá tempo mais?
Em tempos corridos e sem paz
Sempre parece ser tarde demais
Mesmo que o dia esteja apenas no começo
Antes dos pássaros acordarem
Quando o silêncio domina as ruas
E os poetas em suas janelas admiram a lua Fazer seu caminho tranquilo e sempre igual
Eu me olho no espelho como a lua se olha no mar
me dá um desespero, uma vontade de chorar,
Por dentro acho que existe um medo
De nada disso mudar
Mas no reflexo dos meus olhos eu vejo o sol brilhar
e repintar o céu de cores indescritíveis
Impossível de imaginar
A vida às vezes dá e ora há de tomar
É boa, bonita e difícil
Viver não é coisa à toa
É equilibrar-se em um precipício
Mas me apego em um sorriso bobo de uma criança,
Em um amor intraduzível,
Um novo objetivo
E vejo o sol brilhar
Como nunca tinha visto
Quando o silêncio domina as ruas
E os poetas em suas janelas admiram a lua Fazer seu caminho tranquilo e sempre igual
Eu me olho no espelho como a lua se olha no mar
me dá um desespero, uma vontade de chorar,
Por dentro acho que existe um medo
De nada disso mudar
Mas no reflexo dos meus olhos eu vejo o sol brilhar
e repintar o céu de cores indescritíveis
Impossível de imaginar
A vida às vezes dá e ora há de tomar
É boa, bonita e difícil
Viver não é coisa à toa
É equilibrar-se em um precipício
Mas me apego em um sorriso bobo de uma criança,
Em um amor intraduzível,
Um novo objetivo
E vejo o sol brilhar
Como nunca tinha visto
Fabiano Fuscald
A segunda contribuição é do poeta Fabiano Fuscaldi, professor de literatura, integrante da Academia Divinopolitana de Letras – ADL, que recentemente lançou como organizador, o livro OBRA COMPLETA DO POETA JÚLIO RÉGIS FUSCALDI, seu pai, também poeta e acadêmico. Sua verve poética tem uma elaboração mais intelectual, com uma intertextualidade elaborada, como no texto a seguir, no qual dialoga poeticamente com o o autor mineiro, o poeta maior, Carlos Drummond de Andrade.
RETRATO NA PAREDE
(A Carlos Drummond de Andrade)
Cem anos, caro amigo
Cem anos
É o tempo que leva uma escavadora
Pra sugar tua cidade
Desgastar tua idade
Gangrenar tua paisagem
Minar tua mineiridade
Cem anos
Cem anos é o que vale
A cota de gratuidade
De tamanha fatalidade
Pra que a sanha de maldade
Arremate e arrecade
E cambiar a prioridade
A uma nova propriedade
Cem anos é o prazo de validade
Pra que a leva exploradora
Perca a força de vontade
Sobre a terra invalidada
Arrasada em estupor
Num tumor que a corrói
E te anuncie a brevidade
Porque a custa da saudade
De um Carlos de Andrade
É um retrato na parede
E como dói
CLÁUDIO GUADALUPE - Poeta integrante da ADL e do ARTEFERIA
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