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Adriana Ferreira

Matheus Dias

Por Bruno
Matheus Dias

O vereador do Avante tem apresentado propostas que têm dividido a opinião pública. Além do projeto da Bíblia Sagrada como ferramenta paradidática, apresentou o já aprovado pela Câmara e sancionado pelo prefeito, “Lei Pró-Vida” que exige autorização expressa dos pais ou responsáveis em caso de aborto em crianças e adolescentes, mesmo nos casos previstos por lei. Há ainda o proposição que visa proibir a execução de danças e músicas com coreografias ou letras que façam apologia ao crime, ao uso de drogas, ou expressem conteúdos verbais e não verbais de cunho sexual e erótico em eventos abertos ao público infantojuvenil, sejam financiados pela iniciativa privada, seja pelo poder público. E o último que estabelece o sexo biológico como único critério para definir o gênero de atletas em competições esportivas realizadas em Divinópolis.

Pois bem

Em relação ao primeiro projeto, a colunista se posicionou contra, embora seja cristã e tenha a Bíblia Sagrada como o Livro de respostas para todas as perguntas. O posicionamento já foi devidamente esclarecido nas colunas anteriores. Em relação aos demais projetos, merece aplausos e de pé. A Lei Pró-Vida visa envolver os pais e responsáveis naquela que talvez será a decisão mais difícil da vida  da criança e adolescente a quem não é dado carregar um peso sozinho. Claro que havendo risco e os pais e responsáveis  envolvam questões que por exemplo fogem à laicidade do Estado, cabe  ao Ministério Público e ao Poder Judiciário agirem. Quanto ao projeto que proíbe a execução de músicas e coreografias, a colunista se lembra de quando participou do Natal do Lar das Meninas e, infelizmente, colocaram funk pesadão, falando de drogas e até de estupro. Algumas meninas que ali se encontravam eram vítimas de abuso sexual e haviam sido usadas como moeda de troca de fornecimento de drogas para os pais. Elas precisavam disso naquele momento?  Elas tinham que ser lembradas do que lhes aconteceu em plena noite de Natal? Por que não lhes foi permitido o direito de sonhar? Nota 10, vereador Matheus Dias!

Jogos esportivos

Em relação aos jogos esportivos pelo sexo biológico, voltemos às origens.  As Olimpíadas na Antiguidade surgiram por volta de 776 a. C., ou seja, há quase 2.800 anos. À época, os jogos estavam associados a rituais religiosos. Nesse sentido, os gregos homenageavam Zeus, rei dos deuses na mitologia grega. Os jogos recebem esse nome, pois começaram na cidade grega de Olímpia, situada no sudoeste da Grécia. Somente homens gregos livres podiam competir, e as competições eram realizadas em trajes mínimos ou nus, refletindo a celebração do corpo humano e da forma física. Mulheres, estrangeiros e escravos eram proibidos de participar. Nem mesmo assistir era permitido às mulheres, embora houvesse festivais esportivos separados em honra a Hera, a esposa de Zeus, onde podiam competir. Os Jogos Olímpicos da Antiguidade continuaram por quase 12 séculos até o imperador romano Teodósio banir a  sua realização em 393 d.C., como parte de uma campanha para impor o Cristianismo como religião oficial do Império Romano, pois via os festivais e competições em honra aos deuses pagãos como heresias a serem erradicadas. O fato marcou o fim das Olimpíadas na Antiguidade. Em 426 d.C.  Teodósio II ordenou a destruição de todos os templos gregos.

Na atualidade

Em 1890, depois de assistir aos Jogos Anuais da Sociedade Olímpica de Wenlock, o Barão Pierre de Coubertin se inspirou em fundar o Comitê Olímpico Internacional. O primeiro Congresso Olímpico do recém-criado Comitê Olímpico Internacional foi realizado no período de 16 a 23 junho de 1894, na Sorbonne, em Paris. No último dia do congresso, foi decidido que os primeiros Jogos Olímpicos teriam lugar dois anos mais tarde, em Atenas, Grécia, como um tributo adequado às origens históricas dos Jogos, conectando o passado glorioso com um futuro promissor. Esse evento inaugural estabeleceu as bases para o movimento olímpico global, que continuaria a crescer e evoluir, inspirando atletas e unindo nações em celebração do espírito esportivo. Os Jogos de 1896 foram modestos em comparação com os padrões modernos, mas estabeleceram um modelo para as futuras edições. Competidores de diferentes países se reuniram para competir em um espírito de amizade e respeito mútuo, revivendo os ideais de excelência física e competição justa que haviam caracterizado os Jogos antigos.

Mulheres nas Olimpíadas

O  Barão Pierre de Coubertin  era contra a participação de mulheres nos Jogos Olímpicos.  Para ele "Os Jogos são a exaltação solene e periódica do esporte masculino, com o aplauso das mulheres como recompensa.” De Coubertin foi um oponente da participação das mulheres até sua morte ocorrida em 02 de setembro de 1937, porém desde a segunda edição, em Paris, em 1900, já havia a participação de mulheres – 22 -  ainda que a  presença delas era quase simbólica e se limitava a disciplinas "de natureza feminina", de acordo com os organizadores, como golfe e tênis.  E cada vez mais crescia o número de vozes contra esse pensamento de igualdade na competição esportiva mais internacional. No entanto, a pressão do movimento de mulheres manteve uma reação feroz contra a rejeição da integração das mulheres no esporte.  De 22 em 1900, a 300 atletas femininas nos Jogos Olímpicos de Amsterdã em 1928 e participando de mais modalidades. Somente em 1984, em Los Angeles, as mulheres foram autorizadas a participar de uma maratona pela primeira vez, e em 2012, em Londres, as mulheres puderam participar de todas as categorias. A paridade somente veio em 2024, nos Jogos Olímpicos de Paris. As mulheres levaram mais de um século para conquistar seu espaço com igualdade nas Olímpiadas.

Paralimpíadas

Em 1948, o neurocirurgião alemão Ludwig Guttmann, refugiado na Inglaterra,  organizou uma competição esportiva em Stoke Mandeville, na Inglaterra, que envolveu 16 veteranos da Segunda Guerra Mundial com lesões na medula espinhal. Ele acreditava que o esporte poderia ser uma ferramenta poderosa na reabilitação de seus pacientes. A partir da década de 1950, os jogos em Stoke Mandeville começaram a atrair atletas de outros países, transformando-se em um evento internacional. Em 1960, esses jogos foram levados a Roma, que também sediava as Olimpíadas naquele ano. Assim, os primeiros Jogos Paralímpicos oficiais nasceram, com a participação de 400 atletas de 23 países. Essa edição marcou o início de uma tradição que se consolidaria nas décadas seguintes. O termo “Paralimpíada” combina as palavras “paraplégico” e “Olimpíada”, refletindo originalmente o foco inicial em atletas com lesões medulares. Com o tempo, o termo evoluiu para abranger uma gama mais ampla de deficiências físicas e, posteriormente, também deficiências intelectuais. Hoje, o termo “Paralimpíada” é utilizado para descrever esse grande evento global de inclusão, independente do tipo de deficiência.

Atletas trans

As Olimpíadas de 2024 contaram com atletas trans e não-binários, para a revolta de muitos, embora o COI tenha  buscado colocar regras visando a questão hormonal como forma de equilibrar a disputa entre mulheres biológicas e mulheres trans. Em tempo: a coluna nunca teve notícia de homens trans no esporte. Alguém já?  William Bruce Jenner,  atualmente Caitlyn Marie Jenner, conquistou fama em seu país após vencer uma medalha de ouro no decatlo masculino durante os Jogos Olímpicos de Verão de 1976 em Montreal, Canadá. Ex-atleta e celebridade transgênero defendeu o retorno de testes de identificação sexual em atletas: "seres humanos não podem mudar seu sexo biológico".  Ela explicou: "eu vou usar seu pronome de preferência, você pode usar vestidos, fazer tudo o que quiser, tudo bem, não tenho nada contra isso, mas biologicamente você ainda é um homem". Segundo Jenner, ela estaria insistindo pelo retorno de testes assim no esporte, pois, segundo ela, se "continuarmos assim, será basicamente o fim do esporte feminino como o conhecemos".

Respeito mútuo e competição justa : princípios basilares dos jogos

As Olimpíadas nasceram para gregos puros e livres e outros homens levaram séculos para participar. As mulheres puderam participar somente a partir do ano de 1900 e as Olimpíadas surgiram em 776 a.C., ou seja, esperaram 27 séculos para participar e 28 séculos para estarem em todas as categorias. As pessoas com deficiência esperaram 28 séculos. A pergunta: por que a população trans não pode esperar? Com o aumento considerável da população trans, começariam com jogos locais, regionais, estaduais, nacionais e depois conquistariam o mundo. Foi assim para os não gregos, mulheres  e pessoas com deficiência, por que não pode ser para pessoas trans? Aí sim, os princípios norteadores dos jogos estariam respeitados e todos os atletas jogando com seus pares, respeitados em sua integralidade. Isso não se chama transfobia ou homofobia. Isso se chama equidade, isso se chama Justiça. Salve Matheus!

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Adriana Ferreira é advogada, pós-graduada em Direito Público e Direito Empresarial, pós-graduanda em Mediação, Direito Sistêmico e Constelações Familiares, escritora, colunista jurídica e política. adrianaferreira@ferreiraadvogados.adv.br

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