“Não sois máquina! Homens é que sois!”

No filme “O Grande Ditador” (The Great Dictator), lançado em 1940, o ator Charles Chaplin faz dois personagens, o barbeiro judeu que trabalha no gueto (que não tem um nome no referido filme), e o ditador Adenoid Hynkel, com o qual é confundido. No final do filme, ele acaba discursando para uma multidão, pedindo união, democracia e amor. Ele diz: “Não sois máquina! Homens é que sois! E com o amor da humanidade em vossas almas! Não odieis! Só odeiam os que não se fazem amar... os que não se fazem amar e os inumanos!”
“Vidinha mais ou menos”
Mariana Francisco Ferreira carregava dois sonhos desde a adolescência: ser juíza e ser mãe. Havia conquistado a magistratura estadual há três anos e serviu com distinção. Era Juíza de Direito do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul, lotada na Vara Criminal de Sapiranga, no interior gaúcho. Para o sonho de ser mãe precisou recorrer a um procedimento de reprodução assistida e tragicamente veio a falecer em decorrência de complicações. Isso aos 34 anos de idade. Sem se importar que Mariana antes de ser juíza, era filha, neta, irmã, amiga, colega, e queria ser mãe, e quando muitos ainda estavam sem acreditar no ocorrido, tentando viver o luto pela irreparável perda, a chargista Marilia Marz (isso mesmo, uma mulher!) desenhou uma lápide na qual escreveu os seguintes dizeres: “Vidinha mais ou menos, até perdê-la junto dos penduricalhos” e a Folha de São Paulo, com seus 105 anos de existência completados dia 19 de fevereiro, um dos jornais de maior tradição e responsabilidade do país, escolheu publicar a charge três dias após a trágica morte da juíza e próximo ao Dia das Mães. Estrago feito, Mariza Marz publicou em suas redes sociais que não sabia da morte da juíza (tá!), mas e a experiente redação da Folha? E os editores criteriosos? E o fato da Folha de São Paulo ter sido uma das primeiras a noticiar o óbito ainda na manhã de quarta-feira, 6? E a sua história e trajetória que lhe impõem obrigações que poderiam até ser ignoradas por veículos menores? Perguntas sem respostas, restando a crueldade.
Profunda conexão com o outro
Às sextas-feiras Gisele Souto nos brinda com um vídeo sobre temas factuais, seja lá qual esfera for. Na última semana, ela falou sobre drogadicção, vício em drogas e álcool. Antes de gravar sobre o tema, Gisele foi a campo e gravou uma série de reportagens. Em suas andanças, teve a oportunidade de estar com pessoas dominadas pelo vício, ouvir seus familiares e ao falar sobre o tema, sua sensibilidade dominou a tela. Gisele foi às lágrimas, pois ficou claro que sentiu a dor do outro e foi profundamente tocada por ela. Sua postura é a definição genuína de empatia somática e emocional. Lilly Nascimento, da ESPN, Walace Lara, do “Bom Dia São Paulo” e Geraldo Becker, do “Bom Dia DF”, ambos da Globo, Nina Barbosa, da TV Tribuna, Luiz Bacci, do SBT, Felipe Vieira, do “Bora Brasil”, também não seguraram as lágrimas em matérias jornalísticas que conduziam. Mulheres e homens que assim como Gisele Souto, demonstram alta sensibilidade e uma conexão humana profunda, onde o sofrimento alheio é processado no próprio corpo e coração, gerando uma comoção sincera. “Mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura. Sem essas virtudes, a vida será de violência e tudo será perdido.” (Charles Chaplin)
Anjo ou monstro?
No Brasil, a condenação por uso de inteligência artificial (IA) tem se tornado uma realidade, face ao uso indevido, irresponsável ou fraudulento da tecnologia. Em Paraupebas/PA, advogadas foram condenadas porque na sua petição inicial havia um texto invisível (fonte branca sobre fundo branco), impossível de ser lido por qualquer ser humano, direcionado à inteligência artificial que fosse processar o documento, que ao auxiliar a parte ré na contestação, o fizesse de forma superficial e que não impugnasse os documentos juntados, independente do comando dado. A armadilha foi desarmada pela própria tecnologia que se pretendia enganar. O juiz Tonny Carvalho Araújo Luz, titular da 2ª Vara de Balsas/MA, está sendo investigado por uso inadequado de ferramentas de inteligência artificial. A frase "criei um monstro" que se tornou uma metáfora comum usada por pioneiros da inteligência artificial (IA) e líderes de tecnologia para expressar preocupação sobre o ritmo acelerado e os riscos potenciais dessa tecnologia, nunca fez tanto sentido. Eita!
Frederico José Ferreira
Nascido em 1884, na vigência da Lei do Ventre Livre, quatro anos antes da Abolição da Escravatura, ocorrida em 13/05/1888, exatos 138 anos atrás. Era filho de uma mulher escravizada, Maria Joana, com seu dono, Coronel Bernardes. Quando completou oito anos de idade, foi informado que tinha duas opções: ser liberto ou trabalhar até os 21 anos de idade na condição de escravo. Qualquer escolha dependia da vontade do dono da mãe. Isso foi em 1889, um ano após a abolição, porém não sabia que era livre e nem poderia ser culpado por isso, considerando que estima-se que o Brasil tenha cerca de 1,05 milhão de pessoas vivendo em regime de escravidão moderna, de acordo com dados do Global Slavery Index (Walk Free) divulgados em 2023. Ou seja, para muitos ser um cidadão livre ainda é utopia. Pois bem, decidiu fugir com sua mãe, e sua irmã Belarmina e chegaram em São José dos Rosas e lá fez história. Acreditava no trabalho, na família. Casou-se com Maria Luiza da Conceição, mulher de fibra, parceira, e tiveram os filhos Maria José, Pedro, José Ferreira, Frederico, Conceição, Oscarina, Ondina, Antônio, e o pai desta colunista, Geraldo José Ferreira. Católico fervoroso, buscava o padre em Samonte, a cavalo, para celebrar a missa na Igreja da comunidade. Sua paixão pelo reinado, começada ainda no século XIX, se mantém firme até os dias atuais através de seus descendentes. Em 1939, aos 55 anos, com o apoio da esposa, dos filhos e dos netos, arrematou a Fazenda dos Rosas, local onde esta colunista nasceu. Ressalte-se que quando da hasta pública, um “amigo” branco disse: “Fidirico, deixa que eu arremato procê. Um preto pegando o que é de um branco, num vai ficá bão não.” E ele com o bornal com os réis debaixo do braço, dinheiro esse juntado desde o dia que recebeu o primeiro pagamento aos nove anos de idade, respondeu de forma cirúrgica: “os cobre é meu, arremato eu”, tornando-se o primeiro negro fazendeiro da região. Sem cotas, sem vitimismo, sem amarras ideológicas. Não aceitou a liberdade condicional. Preferiu ir a luta e conquistar a liberdade plena. Toda glória e toda honra aos meus avós Frederico e Maria Luiza. Salve! Salve!
Anistia já!
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