Ranking que envergonha

Minas Gerais voltou a liderar um ranking nacional. Mas não há motivo para orgulho. Somos o estado com mais acidentes, mais feridos e mais mortes nas rodovias federais do país. Em 2025, foram 9.559 ocorrências. Quase 12 mil pessoas feridas. 765 vidas perdidas. 13% de todos os acidentes registrados no Brasil aconteceram aqui.
Enquanto o país apresentou leve queda nos números, Minas segue no topo e isso deveria acender um alerta vermelho. Não se trata apenas de estatística. São famílias desfeitas, projetos interrompidos, crianças órfãs, pais que não voltam para casa. Cada número carrega uma história que terminou no asfalto.
É verdade que Minas possui uma das maiores malhas rodoviárias do país. É verdade que o estado é corredor logístico estratégico. Mas extensão territorial não pode ser justificativa automática para liderança em mortes. Algo está errado.
Os dados da própria Polícia Rodoviária Federal ajudam a entender o cenário. Mais de 10 milhões de infrações foram registradas nas rodovias federais brasileiras em 2025, um aumento de quase 8%. O excesso de velocidade lidera com folga o ranking das imprudências. Só as multas por dirigir até 20% acima do limite somaram mais de 6 milhões.
A conta é simples: velocidade, desatenção, imprudência e desrespeito às normas produzem tragédias previsíveis. E quando a tragédia se torna previsível, ela deixa de ser acidente para se aproximar de negligência coletiva. Também é preciso falar de infraestrutura, fiscalização constante, sinalização adequada e investimentos em trechos historicamente perigosos. Minas convive há anos com rodovias conhecidas pelo alto índice de ocorrências. Algumas se tornaram sinônimo de medo para quem precisa trafegar diariamente.
Mas não é só o poder público que precisa agir. Os números mostram que grande parte das infrações está ligada a comportamentos individuais: excesso de velocidade, ultrapassagens proibidas, veículos em mau estado de conservação, direção sem habilitação, desobediência às ordens de agentes. São escolhas. E escolhas têm consequências. Quando Minas lidera acidentes, mortes e feridos, o problema não é apenas geográfico. É cultural. É estrutural. É educativo.
O trânsito reflete o tipo de sociedade que somos. Uma sociedade apressada, intolerante, que naturaliza pequenas infrações como se fossem inofensivas. Até que deixam de ser. 765 mortes em um ano significam, em média, mais de duas vidas perdidas por dia nas rodovias federais que cortam o estado. Duas famílias enlutadas diariamente. Não podemos tratar isso como rotina.
É preciso reforçar fiscalização, investir em engenharia de tráfego, melhorar a malha viária, ampliar campanhas educativas e, sobretudo, mudar comportamento. Porque nenhuma obra substitui responsabilidade individual. Minas não pode continuar liderando o ranking da dor.
Cada placa de limite de velocidade ignorada pode representar uma vida a menos. Cada ultrapassagem indevida pode ser a última. O alerta está dado. A pergunta é se vamos esperar o próximo balanço para repetir a indignação — ou se, finalmente, vamos transformar números em mudança real.
Comentários
Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.
Carregando comentários…
