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Editorial

Sequência que assusta

Por Bruno
Sequência que assusta

Temos falado com frequência, talvez até com insistência, sobre violência contra a mulher. Feminicídios, agressões, ameaças, medidas protetivas. Casos que se repetem, números que se acumulam, indignações que se renovam.

Mas, nesta semana, algo ultrapassou o limite do já alarmante. Em menos de sete dias, três mulheres foram mortas no Centro-Oeste mineiro. Cidades diferentes. Contextos distintos. A mesma raiz: violência de gênero. A mesma sensação coletiva: medo.

Não é exagero dizer que a sucessão dos casos assusta. Não apenas pela brutalidade, mas pela frequência. Quando crimes dessa natureza deixam de ser episódios isolados e passam a ocorrer em sequência, a sociedade precisa parar e encarar o que está acontecendo.

Há outro ponto que chama atenção — e que tem se tornado uma tônica preocupante: o agressor que mata e, em seguida, tira a própria vida. A ideia de posse que ultrapassa o limite da convivência e termina na lógica perversa do “se não for minha, não será de mais ninguém”. É o extremo da incapacidade de lidar com rejeição, autonomia e ruptura.

Esse padrão revela algo mais profundo do que um impulso momentâneo. Revela uma cultura que ainda enxerga a mulher como extensão do homem, como propriedade emocional. Quando a relação termina, alguns não suportam a perda do controle. E transformam frustração em violência.

Os especialistas alertam há anos: o feminicídio não começa com o disparo, com a faca ou com a agressão fatal. Ele começa antes — na violência psicológica, no controle, no ciúme excessivo, na ameaça velada, na desqualificação constante. Quando esses sinais são ignorados ou naturalizados, o risco cresce.

Também é impossível ignorar as vulnerabilidades sociais que atravessam alguns desses casos. Dependência financeira, isolamento, falta de rede de apoio, histórico de violência anterior. Romper um relacionamento abusivo ainda é, para muitas mulheres, um ato de coragem que pode custar caro.

E o Estado? Atua, mas ainda não o suficiente. Medidas protetivas são concedidas aos milhares todos os anos. Processos são julgados. Campanhas são feitas. Ainda assim, mulheres continuam morrendo.

Não podemos tratar essa sequência como coincidência trágica. Ela é sintoma. Sintoma de falhas estruturais, culturais e institucionais. Sintoma de uma sociedade que ainda ensina homens a dominar e mulheres a suportar.

A repetição também impõe outra reflexão: estamos nos acostumando? A cada novo caso, a comoção é intensa, mas breve. Dias depois, outro episódio ocupa o noticiário. E seguimos. Não deveríamos. A violência contra a mulher não pode ser encarada como estatística inevitável. Cada nome tem história, família, sonhos interrompidos. Cada crime representa uma falha coletiva.

Se temos voltado a esse tema tantas vezes nos editoriais, é porque ele insiste em voltar às páginas policiais. E enquanto insistir, precisará ocupar também o espaço da reflexão.

A região não pode aceitar que essa sequência se transforme em rotina. É preciso agir antes do próximo caso. Antes da próxima manchete. Antes da próxima vida interrompida.

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