Quantas mais?

Até quando vamos abrir o jornal e encontrar mais um nome, mais uma foto, mais uma história interrompida? Até quando mães vão implorar por justiça diante de câmeras, filhos ficarão órfãos e comunidades inteiras viverão o luto como rotina? O feminicídio deixou de ser exceção chocante para se tornar frequência assustadora.
Em São Paulo, a jovem de 22 anos assassinada pelo companheiro dentro de um relacionamento descrito como abusivo. Amiga de outra mulher que, meses antes, foi atropelada e arrastada na Marginal Tietê, teve as pernas amputadas e morreu após semanas de sofrimento. Duas histórias que se cruzam não apenas pela amizade, mas pela violência que as atravessou.
No Centro-Oeste mineiro, três casos em menos de uma semana no período do Carnaval. Em Itaúna, uma mulher executada pelo ex-companheiro, que em seguida tirou a própria vida. Em Nova Serrana, um corpo abandonado dentro de um sofá em área de mata. Em Santo Antônio do Monte, uma irmã morta a tesouradas.
Podemos voltar um pouco mais e lembrar das histórias de Vanessa Lara e Henay Amorim. Em Pará de Minas e Juatuba, a jovem estudante sequestrada, violentada e assassinada no trajeto do estágio para casa. Em Itaúna novamente, uma morte inicialmente tratada como acidente que, diante de provas, revelou um feminicídio.
Não são episódios isolados. São sintomas. E há um padrão que se repete com crueldade previsível: término não aceito, ciúme doentio, sentimento de posse, agressões que começam pequenas e escalam, ameaças ignoradas, histórico violento conhecido. Muitas vezes, o agressor já tinha passagem pela polícia. Muitas vezes, a vítima já havia relatado medo. Muitas vezes, o entorno sabia que havia algo errado.
A pergunta incômoda não é apenas por que eles matam. É por que falhamos tanto antes disso. A violência contra a mulher não começa com o golpe final. Ela começa no controle, na humilhação, no isolamento, na dependência financeira, na chantagem emocional. Começa quando o “ele é assim mesmo” é tolerado. Quando a agressividade é relativizada. Quando a sociedade ainda educa homens para enxergar mulheres como propriedade.
Estamos diante de um problema estrutural, cultural e urgente. Não basta indignação episódica. Não basta compartilhar hashtags. Não basta lamentar diante de mais um caixão fechado.
É preciso fortalecer redes de proteção, ampliar políticas públicas, garantir acolhimento real a quem decide romper ciclos abusivos. É preciso que medidas protetivas sejam eficazes, que denúncias tenham resposta rápida, que reincidentes sejam monitorados com rigor. É preciso falar sobre masculinidade, frustração, controle e poder desde cedo, nas escolas, nas famílias, nos espaços públicos.
Mas é preciso também que a sociedade pare de naturalizar o inaceitável. Toda semana um caso ganha repercussão. Toda semana um novo rosto ocupa as manchetes. A repetição não pode anestesiar. O fato de acontecer com frequência não pode transformar o horror em estatística comum.
Cada mulher assassinada carrega uma rede de vidas afetadas: filhos, mães, pais, amigos. Cada feminicídio é a prova de que o Estado falhou em algum ponto do caminho. E cada silêncio cúmplice ajuda a manter o ciclo. Não estamos falando de números. Estamos falando de vidas interrompidas por homens que não aceitaram a autonomia feminina, o fim de um relacionamento, a liberdade de escolha.
A violência se tornou insustentável. E a pergunta que ecoa não é retórica, é urgente: quantas mais precisarão morrer para que isso deixe de ser rotina?
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