O circo da rua São Paulo

O picadeiro está montado. As luzes acesas. O público assistindo. E, no centro da arena, cadeiras vazias.
A cena se repete na Câmara Municipal de Divinópolis. Na sexta reunião ordinária do ano, enquanto um vereador discursava pela quinta vez naquela tarde, apenas seis dos 17 parlamentares ocupavam seus lugares no plenário. Seis. O número mínimo para manter a sessão de pé. O suficiente para que o espetáculo não seja cancelado. Mas democracia não é espetáculo, ou não deveria ser.
O presidente da Casa, Israel da Farmácia (PP), subiu à tribuna para defender os colegas e criticar a imprensa. Disse que as cadeiras vazias não significam ausência de trabalho, que os vereadores estariam em seus gabinetes, atendendo a população, estudando projetos. Afirmou que, na hora da votação, todos aparecem. E celebrou, com razão, o selo ouro de transparência conquistado pela Câmara entre 1.581 instituições avaliadas.
Mas há uma contradição gritante entre o discurso e a imagem. Transparência não é apenas publicar atos no portal. É estar presente no debate público. É ouvir o colega na tribuna. É participar da construção coletiva das decisões. O plenário não é detalhe. É o coração do mandato.
O regimento é claro: seis vereadores garantem o quórum para conduzir a reunião; nove para votar. Cumpre-se o mínimo. Mas o mínimo não é sinônimo de compromisso. E quando, por diversas vezes, é preciso interromper a sessão para recompor quórum, o que se revela não é eficiência, é desorganização. É desrespeito com quem está falando. É descaso com quem assiste.
Atacar a imprensa por mostrar as cadeiras vazias é um erro estratégico e moral. A função da imprensa é mostrar. Registrar. Expor. Se o plenário está esvaziado, a imagem não mente. A crítica não nasce da lente; nasce da ausência.
Dizer que “é assim no Congresso” ou “é assim na Assembleia” não serve de justificativa. A régua da ética pública não pode ser nivelada por baixo. Divinópolis não é laboratório para repetir vícios nacionais. É cidade com mais de 240 mil habitantes que esperam postura, presença e responsabilidade.
Terças e quintas são dias de reunião. São dias de debate oficial. São dias em que o vereador deveria priorizar o plenário. Gabinete é parte do mandato, claro. Rua é parte do mandato. Mas a sessão é o momento institucional por excelência. É ali que se constrói a história política da cidade. Ou se desmonta.
O recado que fica, quando a defesa se volta contra quem mostra o problema, é perigoso: parece que o incômodo não é a ausência, mas a exposição dela. Parece que o erro maior não é a cadeira vazia, mas a fotografia.
Se a Câmara quer ser referência em transparência, precisa entender que selo não substitui postura. Que prêmio não compensa ausência. Que discurso inflamado não preenche assento.
Porque, no fim, o que a população vê não é o argumento. É o vazio. E vazio, na política, não é detalhe de cenário. É sintoma.
O picadeiro está armado. Resta saber se os vereadores querem ser protagonistas do debate público, ou apenas figurantes que entram em cena na hora do aplauso e saem quando as luzes ainda estão acesas.
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