Depois da chuva, o silêncio

Quando a água baixa, o que fica não é apenas lama. Fica o silêncio. O vazio das casas interditadas. O eco das sirenes que já não tocam, mas ainda ressoam na memória de quem perdeu tudo.
A tragédia que atingiu a Zona da Mata mineira na última semana entrou para a história como uma das mais devastadoras do estado. Em Juiz de Fora, 65 vidas foram interrompidas. Em Ubá, outras sete mortes confirmadas e um desaparecido ainda lembram que a conta não está encerrada. São números frios que escondem histórias quentes de dor: famílias desfeitas, sonhos soterrados, quartos infantis cobertos por escombros.
Mesmo sem chuva, as ruas continuam sendo evacuadas. O solo permanece encharcado, instável, traiçoeiro. A Defesa Civil segue retirando moradores de suas casas porque o risco não terminou quando o temporal cessou. A tragédia não acaba quando o céu abre. Ela continua nas rachaduras das paredes, nas encostas que cedem dias depois, na incerteza de quem pergunta: “Quando poderei voltar?”
Mais de 8,5 mil pessoas estão desalojadas ou desabrigadas. São milhares de brasileiros vivendo em abrigos improvisados, casas de parentes, colchões espalhados em escolas que viraram pontos de apoio. Crianças que deveriam estar preocupadas com o caderno novo agora aprendem, cedo demais, o peso da perda.
O Corpo de Bombeiros de Minas Gerais mobilizou equipes de várias regiões. Militares do 10º Batalhão, de Divinópolis, reforçam as operações na Zona da Mata. Especialistas em busca e resgate, engenheiros analisando estruturas comprometidas, homens e mulheres que enfrentam o risco para salvar vidas e evitar novas mortes. A solidariedade entre regiões mostra o melhor do estado em meio ao pior cenário.
Mas é impossível ignorar que essa não é a primeira vez. Minas convive com tragédias recorrentes no período chuvoso. Encostas ocupadas sem planejamento, drenagem insuficiente, crescimento urbano desordenado, ausência histórica de políticas estruturais eficazes. A natureza tem força. Mas a negligência humana amplifica o desastre.
Quando bairros inteiros aparecem na lista de evacuação, quando o retorno às casas não tem data, quando o medo de novas chuvas paralisa a rotina, o que está exposto não é apenas um evento climático extremo. É uma fragilidade crônica.
Na próxima semana, mais de 36 mil alunos da rede estadual retomam as aulas em Juiz de Fora e Ubá. A volta às salas representa um passo simbólico de reconstrução. Mas como concentrar-se na lição quando a casa foi destruída? Como falar de futuro quando o presente ainda dói?
Há luto. Há trauma. Há cicatrizes que não serão visíveis nas estatísticas oficiais. Cada nome na lista de mortos é uma ausência permanente na mesa do jantar. Cada rua evacuada é um retrato da insegurança que insiste em rondar nossas cidades.
Depois da chuva, o silêncio pesa. E ele nos obriga a refletir. Quantas vezes mais Minas precisará chorar para que prevenção seja prioridade e não discurso sazonal? Quantas vidas ainda precisarão ser contabilizadas para que planejamento urbano e políticas ambientais deixem de ser promessa?
A água já recuou em muitos pontos. Mas a responsabilidade não pode recuar com ela. Porque tragédia natural não pode continuar sendo sinônimo de fatalidade anunciada.
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