Um país em alerta

O problema não está apenas na balança. Está no prato, na rotina, no sedentarismo normalizado, na pressa diária e, principalmente, na falta de enfrentamento sério. O Brasil engorda e não é força de expressão. É estatística.
Ontem foi celebrado o Dia Mundial da Obesidade. Mas o que a data escancara não é celebração, é preocupação. Hoje, 68% dos brasileiros vivem com excesso de peso. Não é minoria. Não é tendência isolada. É maioria absoluta da população. Desses, 31% já estão na faixa da obesidade e 37% no sobrepeso. A doença que antes era vista como exceção tornou-se regra.
As projeções são ainda mais alarmantes. Até 2030, o número de homens com obesidade pode crescer 33,4%. Entre as mulheres, o aumento pode chegar a 46,2%. No mundo, mais de 1 bilhão de pessoas convivem com a doença e esse número pode ultrapassar 1,5 bilhão até o fim da década se nada mudar.
A obesidade é doença crônica. É fator de risco para diabetes tipo 2, hipertensão, doenças cardiovasculares e diversos tipos de câncer. Não é questão estética. Não é falta de vaidade. É saúde pública.
Os motivos não são simples, mas são conhecidos: crescimento do consumo de alimentos ultraprocessados, redução da atividade física, estresse constante, rotina acelerada e mudança no padrão alimentar das famílias. Entre 40% e 50% dos adultos brasileiros não praticam atividade física na frequência recomendada. O corpo sente. A saúde paga.
O dado mais inquietante talvez esteja entre os jovens. Um em cada três brasileiros de 10 a 19 anos já apresenta excesso de peso. São 2,6 milhões de crianças e adolescentes nessa condição, segundo dados do SUS. Estamos criando uma geração que pode conviver precocemente com doenças que antes apareciam na vida adulta.
Nos últimos anos, medicamentos para emagrecimento ganharam espaço. São ferramentas válidas quando bem indicadas e acompanhadas por profissionais. Mas não substituem mudança de comportamento. Sem reeducação alimentar, sem exercício regular, o efeito rebote é real. E perigoso.
O enfrentamento exige mais do que decisões individuais. Exige políticas públicas consistentes, educação alimentar desde cedo, acesso a espaços seguros para prática esportiva, campanhas permanentes de conscientização. O Atlas Mundial da Obesidade aponta que apenas 7% dos países estão adequadamente preparados para lidar com o avanço da doença.
Não é exagero dizer que estamos diante de uma epidemia silenciosa. O Dia Mundial da Obesidade serve para lembrar que o problema não é invisível, nós é que muitas vezes preferimos não enxergar. Se quase sete em cada dez brasileiros convivem com excesso de peso, não estamos falando de escolhas isoladas. Estamos falando de um modelo de vida que precisa ser revisto.
A balança está dando o recado. A pergunta é se vamos continuar ignorando ou finalmente agir.
Comentários
Participe da conversa — todos os comentários passam por moderação.
Carregando comentários…
