'Soco na cara'

O que muitos e, principalmente, quem paga: o povo —, temiam, aconteceu. A Câmara dos Deputados aprovou nesta terça-feira, 6, o projeto que eleva de 513 para 531 o número de cadeiras na Casa a partir de 2027. Um "soco na cara" da já tão judiada população brasileira. A proposta, que ainda precisa passar pelo Senado, foi justificada como uma solução para a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que obriga a redistribuição das vagas por estado, com base no Censo de 2022. Na alegação da Corte, a medida evita que estados percam representantes — Minas Gerais seria um. No "fritar dos ovos" aumentou 18 vagas, ao contrário de 14, previstas, e aumentou o custo em cerca de R$ 64,6 milhões por ano. Para quem pagar? Aquele que passa a noite toda na fila de uma unidade de saúde, enquanto seu funcionário, o político, tem um posto avançado de saúde montado dentro do Congresso à disposição e um dos melhores planos de saúde. Benesses que explicam bem porque muitos até matam para ser políticos.
Apoio expressivo
A proposta que estava prevista para ser ainda discutida nesta semana, avançou rapidamente com forte apoio de partidos do centrão, da direita e também da esquerda. Entre os representantes mineiros, 25 votaram a favor, 21 se contra e 7 se ausentaram, entre eles, o deputado Domingos Sávio (PL). No partido do ex-presidente, Bolsonaro, com a maior bancada de Minas, nenhum deputado votou favorável. Embora ausente, Sávio já havia adiantado ser contrário à proposta. O PSDB de Aécio Neves foi uma das siglas que apoiou, além do PT, do presidente Lula — apesar de parte ter votado contra ou não estava presente. Como era esperado, legendas ligadas a cargos na Mesa Diretora foram favoráveis à proposta. Lamentar agora não adianta, já foi. A esperança passa então para uma possível negativa do Senado, apesar de ser muito difícil. Se confirmando, o soco está dado duplamente, e a certeza de que se trata dos interesses políticos do que uma questão de representatividade.
Defesa da anistia
Em meio à expectativa dos desdobramentos das investigações que envolvem apoiadores de Bolsonaro, e o próprio ex-presidente, foi realizada ontem, mais uma manifestação em defesa da anistia. A intenção dos atos que já ocorreram em São Paulo e no Rio de Janeiro, é pressionar na seara política uma possível saída - em negociação - para os condenados do 8 de janeiro. Principalmente pelo fato de o projeto que anistia os condenados pelos ataques contra a democracia, enfrentar forte resistência no Legislativo Executivo e, em especial, no Judiciário. A nova manifestação convocada pelo pastor Silas Malafaia para esta quarta, 7, foi batizada de “Caminhada Pacífica pela Anistia Humanitária”. A aposta foi a maior proximidade com o público, desta vez, menor. E parece que o objetivo foi atingido, pelo menos no protesto. Quanto ao projeto, aí, não dá pra se dizer o mesmo.
Cerco jurídico
Os trabalhos nos poderes não foram afetados com a realização do ato. Nos corredores políticos, a mobilização, desta vez, na capital federal, é avaliada por interlocutores como um teste de força, mesmo que de forma simbólica, em meio ao cerco jurídico ao ex-presidente, seus aliados, e demais apoiadores. Bolsonaro, que é réu no STF por suposta tentativa de golpe, descumpriu ordem médica e até subiu em trio, mesmo se recuperando de recente cirurgia no intestino. Mas, a causa falou mais forte. Mesmo assim, a proposta segue empacada, o que faz surgir comentários de que a pressão da direita não tem sido eficaz.
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