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Editorial

No real, não! 

No real, não! 

Uma mulher é vítima de feminicídio a cada seis horas no Brasil. Os anos passam e, infelizmente, os números apenas aumentam. De acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), o país registrou 1.463 casos de feminicídios no ano passado — o maior número desde que a lei contra crimes dessa natureza foi criada, em 2015. O levantamento apontou ainda que 18 estados apresentaram uma taxa de feminicídio acima da média nacional, de 1,4 mortes para cada 100 mil mulheres. É assustador? É. Sem sombra de dúvidas. 

É desolador pensar em quantas mulheres perderam, perdem e perderão suas vidas pelo simples fato de decidirem não estarem mais em um relacionamento. Porém, mais angustiante do que isso é ver que essas mulheres são vítimas não apenas de seus companheiros – ou ex-companheiros – mas também da hipocrisia que governa a sociedade. A verdade escancarada, desnuda, sem maquiagem, é que poucas pessoas de fato se importam se uma mulher está sendo vítima de violência doméstica. O ditado “em briga de marido mulher não mete a colher” ainda se faz real nos tempos atuais. Aliás, mais real do que nunca. Mais presente do que nunca. As pessoas não se importam, e a sociedade não está preparada para acolher uma mulher vítima de violência doméstica. 

Infelizmente essa mulher só tem compaixão quando é espancada até a morte, quando recebe as facadas ou os tiros que lhe tiram a vida, ou é assassinada de outro jeito. Aí sim, ela é notada. E, é neste ponto que tudo recai sobre a Justiça, e iniciam o discurso do “ah, mas aqui no Brasil não há punição, não existem leis severas”. Um relatório técnico produzido pela Superintendência de Observatório de Segurança Pública apontou que em 80% dos feminicídios as vítimas não tinham medida protetiva, e 60%, sequer boletim de ocorrência registrado. O dado remete somente a um ponto: vergonha e medo de ser julgada. A verdade é que essas mulheres são silenciadas todos os dias, pelo medo, pela vergonha, por essa sociedade que só as notam quando elas ocupam as páginas dos noticiários. Afinal, a realidade é que poucas pessoas se importam se uma mulher está apanhando ou não. Alguns ainda chegam a dizer “apanhou porque quis”; “mas ele te dá tudo”; “mas o que você fez para ele te bater?”; “você tem seus filhos”; “perdoa, ele vai mudar”; entre diversas outras frases, que no fim só mostram o quanto a sociedade não está preparada para acolher uma mulher vítima de violência doméstica. 

É fato: se os números estão aumentando a cada ano, algo não está funcionando. E, se há outro fato neste contexto, é que a culpa não é apenas da Justiça. Existe todo um cenário em torno dessa mulher, antes de ela chegar no caixão. Marias, Julianas, Joanas, Cidas, Rosas, e tantas outras perderam suas vidas não apenas por causa de seus companheiros ou ex-companheiros abusivos, ou por causa das leis brasileiras que são falhas e fracas, mas por causa dessa sociedade que respira hipocrisia, e que não se importa se uma mulher está apanhando ou não. Elas foram vítimas da sociedade que filma, mas não socorre, que julga, mas não acolhe, e que quer sim mudanças, mas só no ilusório, no real, não! 

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